Dá para acreditar que já andou sobre este planeta alguém que foi chamado de Sexto Empírico?

Pois este personagem existiu, no segundo século da nossa era, e foi fundamental para popularizar, tanto quanto possível, à época, o ceticismo pirrônico. Um nome feio, mas autoexplicativo de uma escola filosófica que trouxe a dúvida para o centro do debate.

Ainda que tenha abdicado do nome, esta escola sobrevive entre aqueles que duvidam até da dúvida. Não se trata, aqui, de viver com uma interrogação na cabeça. Muito pelo contrário, o ceticismo pirrônico defendia que nada deve ser levado demasiadamente a sério. Caminha pelo território do estoicismo, que buscou familiarizar o homem com a morte, para que ele pudesse beber da vida até a última gota.

O pai da matéria, como o nome indica, foi o filósofo grego Pirro (não confundir com o general), que buscava a ataraxia, traduzida como equilíbrio, o caminho da serenidade, da tranquilidade, para o melhor uso da própria existência.

E não é que nem mesmo o próprio Pirro conseguiu se controlar nas altercações com sua irmã? Pois foi assim, narraram com deboche, é claro, seus contemporâneos. Ele? “É muito difícil despir completamente o homem”.

As relações humanas são e sempre serão complicadas, prenhes de surpresas, truques e armadilhas. Nem tudo para o mal, nem tudo para o bem.

Há pessoas, destaco, que nos elevam, nos conduzem para o alto, de onde se vê a realidade e até os mais recônditos sentimentos humanos – os instintos dos quais não conseguimos nos livrar e que também foram decisivos para que chegássemos até aqui como uma espécie arrogante e/ou sentimental.

Entre os tais eu apontaria escritores, artistas e principalmente gente com quem convivemos e que seguirá anônima na história, mas que nos ensina a sabedoria, pelo exemplo e até pelo silêncio, nos momentos em que as palavras estão morando perto demais dos nossos lábios, entranhadas de emoção tão somente.

Sim, eu sei: há aqueles que nos puxam para baixo, para o território da iniquidade, com os ardis do afeto ou do desafeto. Sabê-los é uma missão da vida toda e que não tem fim (é manter o alerta ligado, pirronicamente).

Não há chance de que eles subam ao território onde as coisas clareiam. Mas são inesgotáveis, pela nossa fragilidade, as possibilidades que eles carregam de nos arrastar para o poço da sordidez, seu hábitat natural. Agindo com eles ou reagindo a eles, a eles nos igualamos, e, lamentavelmente, só haveremos de desprezar o dito ou o feito com o passar dos tempos, quando a alma esfriar.

A autoconsciência crítica, a preferida de Nietzsche, pode ser tão elucidativa quanto dolorosa, a depender do momento em que ela chega. A tal armadilha está sempre montada, num prato de veneno agridoce especial, que pode atrair tanto passarinhos quanto serpentes.

E por não sermos – que o diga o pai do ceticismo falado – donos absolutos da nossa vontade, que é resultado de uma equação em que interagem razão e sentimento, podemos ser as vítimas tolas daquilo que, do alto, imaginávamos já estar isentos. Aos bárbaros, respondemos como bárbaros, e o nosso caminho civilizador anda algumas casas para trás. No pior cenário, a sua baixeza passa a ser também a nossa baixeza.

Eis a derrota de Pirro: o mal tem um poder imenso sobre nós.

O resultado, quando nos damos conta, há de nos levar à conclusão doída de Kierkegaard, pai do Existencialismo, para quem “o que pode acontecer de mais terrível a um homem é tornar-se ridículo aos seus próprios olhos em uma questão de importância essencial”.

Que conselho poderia nos dar, então, Sexto Empírico, para que escapemos, se não ilesos, ao menos levemente feridos, desses potenciais embates no cotidiano?

Talvez: “Evite a irmã de Pirro”.

 

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  • Juvenal Gonçalves

    Bom dia, Ricardo.
    Diria eu: Deus me livre do ceticismo Pirrônico!
    Embora, nos tempos de hoje muitos motivos nos direcionem a essa tendência. Uma coisa é certa: não devemos acreditar nas mais puras promessas de alguns “seres humanos” que militam na nossa pobre política. Isso, me pergunto se já não seria um um ceticismo exagerado.
    Noutros campos, vemos algumas iniciativas Pierrônicas: conheço alguém que me diz: “sou ateu, graças a Deus”. Entretanto, se curva a uma cruz e a chama de santa, ainda: venera uma cobra coral! Opa, não me levem a mal, ou interpretação errônea: falo de um colega “ateu” e torcedor do Santa Cruz!!!
    Voltando, certo estava o filósofo e poeta Gilberto quando escreveu: “andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá…”
    Boa semana!!!

  • JEu

    Bom dia, Ricardo. Como compreendido por Pirro: “é muito difícil despir completamente o homem”… alguém, nos tempos modernos disse: “cada cabeça, um mundo”… outro mais popular diz: “o homem é o momento”… outro ainda diria: “quer conhecer o homem, dê-lhe o poder”… ou seja, nós somos, realmente, o que pensamos e o que sentimos, creio… e tudo junto e, pior, misturado… assim, creio, que tinha razão Sócrates quando afirmou: “conhece-te a ti mesmo”… tarefa muito complicada, pois seria necessário, muitas vezes, nos colocarmos como se estivéssemos fora de nós mesmos, olhando para nós mesmos em determinado momento… aí poderíamos avaliar melhor nossa conduta… porém nos falta o principal: humildade e coragem… pois seria necessário admitir o erro e isso nos diminuiria aos nossos próprios olhos… e ainda receamos, muitas vezes, o “julgamento” dos outros, ou da sociedade… na realidade somos uma “montanha” de orgulho tolo e de vaidades desmedidas… é muita futilidade o que, na maioria das vezes, nos move… damos valor a coisas que não nos trazem a verdadeira felicidade para, logo depois, nos decepcionarmos… na realidade, o que nos faz agir de maneira desarrazoada não é “a irmã de Pirro”, pois nada que é exterior a nós nos atingiria se conhecêssemos a nós mesmos, sabendo medir com justiça o que carregamos em nossa “alma”… dessa forma, os estímulos exteriores mais não fazem do que “inicializar” uma reação conforme o que possuímos em nós mesmos… e o mais grave: depois da reação e reconhecermos que reagimos “ridiculamente” como dito por Kierkegaard, ainda não fazemos o que seria melhor: nos corrigirmos daquela falha de caráter… aí se impõe mais uma vez o orgulho e a vaidade, ou seja, a falta de humildade e a coragem para mudar… pois isso, aos nossos olhos, repito, nos “rebaixaria”… quando a verdade maior é o contrário, ou seja, nos “elevaríamos” em sentimentos e obteríamos a verdadeira vitória: aquela sobre si mesmo… e isso, creio, é o que Sócrates queria destacar quando disse, repito: “conhece-te a ti mesmo”… Bom domingo.

    • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

      Sócrates teve razão em citar a frase, embora atribuída a ele não seria dele, a ver:
      – “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.” –
      “Conhece-te a ti mesmo” é um aforismo grego que revela a importância do autoconhecimento, sendo uma frase bastante conhecida no ramo Filosofia.
      Não há certeza absoluta em relação a quem foi autor desta máxima, mas há vários autores que atribuem a autoria da frase ao sábio grego Tales de Mileto. Apesar disso, existem teorias que afirmam que a frase foi dita por Sócrates, Heráclito ou Pitágoras.
      O aforismo “Conhece-te a ti mesmo” está inscrito na entrada do templo de Delfos, construído em honra a Apolo, o deus grego do sol, da beleza e da harmonia.
      Em grego (língua em que foi escrita), esta frase é gnōthi seauton; em latim é nosce te ipsum e em inglês é Know thyself.
      A frase completa é: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.”
      Esta máxima também é amplamente usada no âmbito de algumas religiões, como o espiritismo, que abordam a importância do autoconhecimento.
      No decorrer dos séculos, esta frase foi usada por vários autores e pensadores, tendo por isso várias interpretações”. (…) – Sic. In https://www.significados.com.br/conhece-te-a-ti-mesmo/
      Abr
      *JG

  • Há Lagoas

    É a realidade humana nua e crua.
    Se me permite um pequeno – porém sincero – desabafo.
    A dúvida – e não a certeza – faz parte do nosso dia a dia, mas, por vezes conseguimos a tão almejada resposta, e para meu desespero ela não é o ultimo estágio para refrigerar nossa alma! Com a resposta em mãos eu preciso me decidir…
    E aí, meu caro blogueiro, percebo que decidir é mais difícil do que obter uma resposta…
    Uma excelente semana a todos.

    • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

      Por mais que tentem expungir a Fé, escarnecer o Cristianismo e desdenhar, espezinhar e menoscabar a teologia, religiosidade e doutrinas cristãs, católicas e evangélicas ou espiritualistas, fomentando incertezas, dúvidas ou até mesmo negações aos fatos e ao que desconhecem ou pelo menos não cultuam e não creem, os comunistas/socialistas/progressistas, evolucionistas, criacionistas, igualitaristas, coletivistas, humanistas, materialistas, ateístas, negativistas e incrédulos ou niilistas e cepticistas se incomodam assaz com “aquilo que não existe”, porquanto “creem piamente” que nada exista enquanto Ser. (…)
      liás, como insinuado, induzido e aduzido pelo Niilismo, que é a redução de tudo a nada. Negação de todo Princípio Religioso, Político e Social. Ora, se se reduz tudo a nada – inclusive o próprio – pois, se “tudo é nada” ele é um nada, haja vista não estar fora do tudo (ou do todo); é a negação de si mesmo. Quem duvida de tudo, portanto, duvida de si mesmo, pois não está ele fora do “tudo”. Enfim, é uma nulidade absoluta. É, pois, um tolo, néscio, idiota ou estúpido! (…)
      Ora, pois, mas DESCONHECER, NEGAR e DUVIDAR são coisas distintas, díspares, diversas e diferentes. – N íntegra in http://gouveiacel.blogspot.com/2018/07/os-materialistas-sempre-tentando.html
      Abr
      *JG

  • Antonio Moreira

    Nunca vi ninguém dizer que era torcedor do doente do CSA e agora é torcedor doente do CRB.
    Trocar de religião, igreja, “partido e político”, cerveja, celular e etc, isso todo mundo sabe que acontece todo dia.
    O Shopping, a Igreja, a loja de automóvel, o hotel não querem saber a origem do seu dinheiro, se é santo ou pecador, todos são bem-vindos.

    Fim expediente da ultima 5ª-feira.
    Um aglomerado de colegas aguardavam o aniversariante(O Dono da empresa) para lhe dar os parabéns…
    Horas antes, um desses colegas, caiu de uma cadeira e ficou registrado nas câmeras e logo foi parar no WhatsApp…
    Eu não sabia que alguns que ali estavam já tinham escutado o que
    que não devia desse nobre colega por causa dessa queda.
    Eu fui mais um, e lhe pedi desculpas. Ele não aceitou, então
    eu disse em tom alto: Não irei tomar “CIBALENA” para dormir por causa disso…
    Foi o suficiente para transformar o silêncio na gargalhada da turma. Fui embora, já tinha dado os parabéns, antes…
    Senti vontade de o mandar tomar …, mas, além das mulheres presentes, acho que não é legal, mesmo com raiva.
    Engraçado, essa pessoa costumava mexer comigo e eu sempre percebia que na essência a brincadeira era inerente a maldade.

  • Dona de casa sem orgulho

    Ricardo, a palavra de Deus nos ensina: “[…]. Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, […]. […]. Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (JEREMIAS, cap. 17, versículos 5a e 9). Também nos afirma: […]. A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (MATEUS, cap. 6, versículos 22 e 23). No mesmo livro sagrado ainda encontramos: “[…]. Até o tolo, quando se cala, será reputado por sábio; e o que cerrar os seus lábios, por sábio.” (PROVÉRBIOS 27:28).
    Para além da palavra de Deus, um escritor americano conhecido pelo pseudônimo de Mark Twain – inclusive, bastante cético e desiludido com a vida, acredito que devido aos percalços que lhe sobrevieram -, disse, certa feita: “[…]. Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te até ao nível dele, e depois vence-te em experiência.”
    Penso, na minha tenra experiência, que não devemos desprezar os fatos, pois, contra os mesmos não existem argumentos; e, nem a dúvida nem o senso comum devem ser ignorados na aferição da verdade.
    Excelente semana para você, a equipe do PSCOM e todos os internautas do bem… rsrs!

  • Doris

    Profundo e delicado.

  • Nelson

    Se é certo que um Deus fez esse mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração. Se imaginassemos um demônio criador, ter-se-ia o direito de lhe censurar, mostrando-lhe sua obra: como te atraves a perturbar o sagrado repouso do nada, para criar esse mundo de angústia e dores.
    O Inferno de nossa vida supera o de Dante no ponto que cada um de nós é o demônio do seu vizinho. Há também um arquedemonio a quem os outros obedecem e o conquistador que dispõe os homens uns frente aos outros e grita, vosso destino é sofrer e morrer, portanto matem-se mutuamente, e assim procedem os Homens.

    A Morte e a dor.
    Arthur Schopenhauer.