Loucura é pouco! PR de Maurício Quintella se divide entre Bolsonaro e Lula
O desembargador Washington Luiz e a ética de Pitágoras

A grande sensação da Copa da Rússia, mais do que o “vinho” Cristiano Ronaldo, tem sido até agora o VAR – video assistant referee –, a tecnologia do tira-teima. Há quem a considere uma interferência indevida do olho eletrônico (são vários, na verdade) naquele que continua sendo o mais popular de todos os esportes.

Eu já acho que a complexa interação homem/máquina traz uma emoção nova à partida. Segundos intermináveis de expectativa que podem gerar êxtase ou frustração. E ainda que o VAR reduza bastante as polêmicas dentro e fora do campo, não as extingue. Basta ver a reação de jogadores e treinadores de equipes “prejudicadas” pelo voyeur da estreita, friccionada e intensa relação homem/bola.

Mais contundente, entretanto, sem deixar quaisquer margens para dúvidas, tem sido a atuação dos invisíveis e impiedosos árbitros de vídeo do lado de fora dos estádios, em terras brasilis (já sem os índios).

Juízes de uma integridade absoluta, sem permitir espaços para dúvidas em suas sentenças morais, têm condenado ao definitivo fogo quem não se comporta bem no território russo. Parece que o tribunal do Facebook ganhou uma nova instância. É claro que os idiotas que desrespeitam mulheres, gays e outras “minorias” devem ser tratados pelo que são: idiotas – exatamente.

O caso de alguns jovens imbecis, ‘bêbados e febris’, que humilharam uma simpática mulher eslava, ganhou mais mídia do que qualquer outro. A repetição exaustiva da imagem – com áudio – dos tolos “isspertos” a dizerem palavrões incompreensíveis para a alegre e inocente cidadã russa representa como poucos o VAR da vida real: todos os magistrados se apresentaram, por óbvio, como as próprias sementes da virtude, diversas, mas com uma única sentença.

Advogados, políticos, diplomatas, parte significativa da elite dirigente brasileira, se manifestaram como se ali tivesse sido cometido um crime de lesa-pátria. Porque estavam eles, assim me parece, em terra estrangeira. Por aqui, a nossa tolerância ou indiferença com atitudes em tudo iguais – se não, piores -, é a marca de um comportamento predominante.

Diariamente, mulheres – e não só elas – são humilhadas no Brasil, no nosso território, à nossa frente, sem que expressemos a mesma contundência e rejeição aos imbecis que replicam uma cultura ainda majoritária, inalcançável pelo VAR da nossa civilidade e/ou consciência coletiva.

Os torcedores/turistas brasileiros estariam manchando a imagem de um povo, junto às nações amigas, que não corresponderia à verdade dos fatos.

E o que diz a nossa paisagem?

Mãe de todas as violências, esta que é cotidianamente praticada no Brasil revela um país mais do que machista, misógino.

As estatísticas últimas garantem que uma mulher é agredida a cada 15 segundos por aqui: a maioria negra, a maioria pobre (ainda que isso soe como clichê).

Só em 2017, foram assassinadas 4.476 mulheres no Brasil.

O mais terrível: 946 casos são considerados feminicídios. Ou seja: mulheres que foram trucidadas simplesmente porque eram mulheres!

Pierre Bourdieu, o sociólogo e pensador francês, que morreu em 2002, afirmava, categoricamente, que aquilo que não aparece na televisão não existe para o mundo. No nosso noticiário televisivo, que não provoca reflexão, cada caso começa e termina em si, nada revelando de uma cultura que perdura impunemente – da construção do ato extremo nas pequenas doses de violência diária.

Eis o que já aparece como uma ausência marcante na nossa vida: não temos um VAR pessoal ou social que grave as imagens da nossa estupidez cotidiana, para que façamos o julgamento instantaneamente, corrigindo os erros no momento exato em que são cometidos – e eles são tantos!

Nietzsche, que ressaltava como primordial para a formação dos indivíduos “a autoconsciência crítica”, não só conhecia como confirmava Tales de Mileto, para quem a mais difícil entre todas as coisas é “conhecer a si mesmo”. Para se conhecer, por óbvio, é preciso antes olhar e enxergar.

Infelizmente, por ora, o nosso VAR só grava e julga as faltas alheias – e quando elas chegam às mídias.

(Em tempos de Copa: não foi pênalti no Neymar. Acertou o juiz – ou foi o VAR?)