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Sei que o leitor domingueiro deste blog é capaz, sim, de esquecer o santo e se ater ao milagre exposto a seguir. O fato e os personagens são bem conhecidos, principalmente em razão do noticiário dominante, quase que exclusivo, das últimas semanas.

Acompanhando a repercussão da prisão do ex-presidente Lula, ainda no dia 7 de abril, fui tomado pela mais absoluta perplexidade por algo que eu nunca imaginei que pudesse acontecer. Pois é: eu continuo um tolo, a tomar sustos com as tolices humanas.

Mas deixemos de mistério.

O título de uma reportagem da Folha de São Paulo, naquele dia, afirmava que a deputada Manuela D’Ávila (PC do B) não havia ficado incomodada pelo fato de que o petista a chamara de “garota bonita” (!!!!). Vieram os comentários, com o humor predominante dos tempos de agora e a afirmação persistente: “Um desrespeito às mulheres!”

Gelei e disse para mim mesmo: “Estou frito. Os que me sucederão, pior ainda, queimarão em fogo lento e inapagável”. Automaticamente, me dei conta de que podemos ter um futuro, muito em breve, em que palavras que ressaltam algum atributo físico das mulheres se tornarão crimes de lesa-pátria, um complô contra – a necessária – luta pela igualdade entre os trezentos e cinquenta gêneros já identificados.

(Paremos por aqui com os preconceitos e vamos ao que interessa.)

Aqueles que se utilizarem das expressões ofensivas, ainda que dirigidas a pessoas da própria família, serão tratados com o rigor que merecem todos os novos machistas e/ou sexistas, que ressaltam criminosamente algum traço da aparência, não da essência, de uma mulher (mãe pode?).

É verdade que isso simplifica a paquera, o cerco delicado das paixões que se prenunciam. O que há de ser até um alívio, nessa quadra em que o vocabulário acumulado vai sendo substituído por consoantes, de forma tão simples e eficaz (rs, bj, kkk). A lembrar: os homens, mulheres e trans das cavernas se comunicavam com monossílabos – e se desentendiam tão bem quanto os sapiens de hoje.

Sem adjetivos que possam ferir a dignidade feminina, o pretenso e resignado assediador há de se colocar no seu devido lugar: “Você tem dois olhos”. “Seus lábios abrem e fecham a sua boca”. “A penugem dos seus braços é matéria orgânica morta, assim como os seus cabelos e unhas”.

Já na escola, a meninada mais afoita, principalmente os moleques que querem abreviar a infância, avançar na adolescência como se fossem adultos anões (opa, Ricardo!), haverão de aprender e apreender, pela dor quando e se preciso for, a respeitar as coleguinhas. Ai daquele sobre quem recaírem a acusação de bullying ou assédio.

Uma garota, “peitinhos de pitomba” (o verso é do Chico Buarque, vou logo avisando), chega em casa aos prantos, traumatizada para todo o sempre, por ter ouvido as ofensas do Robinho, o precoce e afoito Robinho:

– Você é a menina mais bonita da sala!

Expulso da escola, Robinho iniciará ali uma carreira marginal, que o acompanhará à eternidade. Estará com o nome destacado no Google, pelos milhares, eu diria milhões, de mensagens nas redes sociais em que ele será descrito como um serial killer pós-moderno: condenado por unanimidade no Tribunal do Facebook. Os grupos neofeministas o apontarão como o tipo historicamente responsável pela mais sórdida acusação já feita a uma vítima da infâmia masculina.

E nem haverá de poder, ao menos, lamentar o seu castigo, sentenciado à total impossibilidade de convívio com o gênero feminino, pelos olhos pidões, pela lascívia anunciada aos 11 anos de idade, incurável, que o levará finalmente à vigiada eterna solidão. Será sempre o um sem a outra.

A única possibilidade de misericórdia, consagrada pelo avanço do respeito entre os diferentes/diferenciais, será se ele, o sicário, ao assumir seu arrependimento, replicar em si próprio, na prática, os versos consagrados por Luiz Gonzaga (em parceria com Humberto Teixeira) na bela (opa, escorregou de novo) e triste (isto pode?) Assum Preto: “…cego dos óio/ Num vendo a luz, ai, canta de dor.”

E que se dê por satisfeito, o cruel. Destino pior, que venha a lembrar, haveria de ter, nos novos e virtuosos tempos, Machado de Assis, que, com o perdão das palavras, atribuiu a Capitu, sua mais conhecida criação literária, a hediondez de ter “olhos de ressaca”.

Argh!

Aproveito e apresento, aqui e agora, ainda que inútil, um pedido de perdão às tantas garotas… a quem ofendi na minha já longeva existência.