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Paulo Dantas ao blog: "Ninguém tem coragem de sair de casa em Batalha"

A história há de comover até o fim dos dias do mais popular de todos os esportes: o futebol. Eu confesso, humildemente, que marejei e me senti feliz por ter podido acompanhar a trajetória dos protagonistas do enredo, de pura beleza, sobre o melhor da condição humana.

Chega de mistérios.

Estou falando do encontro, em dezembro de 1992, entre Telê Santana, o “Mestre da Oitava Arte” – para os apaixonados por ela –, e Johan Cruyff, síntese e maior representante do que veio a ser chamado, muito tempo depois, de futebol moderno. Claro que, com o holandês, uma partida era uma obra de arte coletiva, sendo dele a pincelada final, aquela que faz jus à assinatura na tela (haveria de ter aprendido com Van Gogh que a Terra era uma bola, com o esplendor de um girassol).

Narra o árbitro da partida decisiva do Mundial de Clubes, em 1992, o argentino Juan Carlos Loustau, que numa madrugada que antecedeu a final entre o São Paulo e o Barcelona, Telê e Cruyff, treinadores das duas equipes, se reuniram por quatro horas, num quarto de hotel, para falar o que pretendiam daquele jogo – vencido pelo São Paulo.

Disse Loustau, 25 anos depois daquela madrugada em Tóquio:

– Eles falavam de futebol como se fosse algo sagrado. Diziam que interromper um jogo com lesões fingidas ou fazer uma substituição para ganhar tempo não era algo válido. Telê e Cruyff queriam muito ganhar a partida, mas não de qualquer maneira, não com trapaças.

A experiência vivida pelo árbitro argentino seria inesquecível para ele, um privilégio que a vida, avara, oferece tão pouco à maioria dos humanos comuns – aquilo que somos:

“Em quarenta anos de carreira, nada me impressionou tanto como ter participado daquela conversa. Foi a coisa mais enriquecedora que o futebol me deu. Eles estavam convencidos de que perder jogando bem não era fracassar e que, para isso, seria necessária uma partida leal. O atleta que não respeitasse isso seria retirado de campo.”

E foi o que aconteceu.

Os que creem haveriam de dizer que foi Deus quem promoveu aquele encontro. Eu não iria tão longe, mas acredito que ele será sempre raro: ali estavam dois profissionais íntegros, que carregavam os mesmos amores; estetas incansáveis e militantes, mas, acima de tudo, dois homens cujo caráter era único – um, o espelho do outro.

Parafraseando Montaigne, aquela conversa, de quatro horas numa madrugada de Tóquio, só foi possível porque Telê era Telê e Cruyff era Cruyff. Tiremos o futebol, a disputa de uma final de campeonato mundial, e restarão “apenas” dois grandes homens.

Tolamente, fiquei a imaginar que as madrugadas, carregadas com o seu silêncio e intimidades anímicas que o sol não parece suportar, poderiam evitar que milhões se matassem – sempre por quase nada, por mais que pareça por quase tudo.

A resolverem a porfia, dois chefes dos seus povos a falar sobre suas paixões, seus olhares de admiração à inspiração dos que compartilham o verdadeiro sentido de Pátria: Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:/ Não sei. De fato, não sei/ Como, por que e quando a minha pátria/ Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água/ Que elaboram e liquefazem a minha mágoa/ Em longas lágrimas amargas (Vinícius de Moraes).

Tudo bem: estou convencido de que a Holanda também tem seus poetas – definitivos e universais, quando dizem daquilo que só eles haverão de enxergar e sentir.

Uma conversa de tantos giros do relógio só seria – e é – possível entre homens que não esperam da vida a vitória: querem muito mais do que isso. E eles tiveram, com a possibilidade única de projetar e aferir os seus desejos. De novo, um identificando no outro o que é a beleza, e como dela poderiam compartilhar.

Em qualquer profissão, Telê e Cruyff seriam o que foram, porque a essência de ambos, aquilo de fato há de importar em todo e qualquer tempo, não entra no gramado para disputar nada: o que mais valia, para eles, há de valer pouco ou quase nada no mercado dos homens. Escreveram, os dois boleiros, no mesmo solo calcinado por bombas incendiárias em agosto de 1945, a metáfora perfeita sobre o Ser Humano Superior.

Quanto ao jogo, aquele de 1992, meninos e meninas, eu vi!