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– Graças a Deus, deu tudo certo.

A frase, banal, não haveria de provocar qualquer discussão. E não era o caso, mesmo. Mas a visita que o paciente recebia no seu quarto, após vários dias de um pós-operatório difícil e doloroso, lhe levou àquela reação marcada de gratidão ao cirurgião responsável pelo meticuloso procedimento.

“Mas se o médico não fosse tão bom, eu não estaria aqui”, disse com firmeza o doente, em estado avançado de recuperação. Falou olhando diretamente para a sua mulher, que havia feito, com naturalidade, o comentário previsível.

Com bom humor e notável serenidade, o profissional deu sequência à conversa em tom ameno:

– Nem se preocupe. Eu agora estou no lucro. Não é demérito nenhum perder para Deus. Duro foi perder para um bode.

– Como assim?!

Ele contou que numa noite estava de plantão em um grande hospital de emergência na capital paulista, quando chegou uma mulher em coma: havia sido picada por uma cascavel. Como o socorro demorou, o veneno da serpente se espalhou pela corrente sanguínea e atingiu o sistema nervoso central.

Foram dias de luta intensa para salvar a vida da mulher, ainda jovem, cuja família rezava desesperadamente nos corredores do hospital.

Na sequência, para felicidade de todos, ela retomou a consciência e trouxe alento aos profissionais que a atenderam naquele momento tão grave. Ao dirigir-se ao médico, ela demonstrou todo o seu apreço pelo autor do milagre salvador:

– Graças a Deus, estou viva.

O seguidor de Esculápio sorriu e comentou com ela que isso só fora possível porque antes de atacá-la, a cobra havia despejado o seu veneno num bode, que andava por ali pelo sítio da família da vítima rediviva, e que morreu subitamente.

A mulher marejou e recompôs a sua manifestação de gratidão:

“Então, eu agradeço primeiro a Deus, depois ao bode, e depois ao senhor”.

– Vejam só, eu perdi para o bode.

Bom, cada um sabe onde o calo lhe aperta e como proporcionar o melhor conforto para sua alma. A fé é das coisas mais íntimas, pessoais e intransferíveis entre aquelas que conhecemos como parte da existência humana. Tê-la vai além de uma simples opção (assim como não tê-la).

E já que o tema desse breve texto provoca – como poucos – ódios mortais, deixo claro que tenho por todas as religiões – monoteístas, politeístas, dualistas – o mesmo respeito. Que destino, também, aos que não seguem qualquer credo religioso.

A lembrar: Mário Vargas Llosa, ateu convicto, já defendeu em seus ensaios a necessidade da religião para o convívio pessoal e social, pois a grande maioria dos indivíduos que compõem a nossa espécie não se mostra capaz de formular um código moral – de bem ou mal -, que possa seguir minimamente sem titubear.

Muito já se disse que todos creem num “Deus pessoal”, que há de dedicar especial atenção àquele por quem tem tanto apreço e que lhe apresenta mais pedidos do que gratidão, este produto em extinção.

Uma história clássica, tão exaustivamente repetida para ilustrar o assunto, é a do passageiro de avião que se atrasou e perdeu o voo da tragédia em que dezenas de pessoas morreram. Foi salvo pela “mão de Deus”, diz ele à imprensa, com as lágrimas emocionadas a lhe banhar as faces. Já os que foram pontuais receberam a pena capital.

O ‘escolhido’, é claro, renunciou a qualquer possibilidade de ser humilde, como pregam todas as religiões. Que a humildade faça morada no coração dos que choram a perda dos seus afetos.

(Mas convém não tentar uma segunda vez. Pode não dar certo.)

Quanto ao médico, aquele lá de São Paulo, que ouviu desolado a vitória do bode, bem que poderia ter lido Goethe, um notório cristão, que pregou:

– Aquele que tem ciência e arte tem também religião; o que não tem nenhuma delas, que tenha religião!