Em uma das suas deliciosas fábulas, Esopo, o escravo grego que se tornou filósofo, conta que Prometeu entregou ao homem dois sacos, para que ele carregasse consigo e fizesse o uso mais justo.

Um deles continha os defeitos alheios e o outro, os defeitos do presenteado. É aí que começa a história da qual fazemos parte: o homem coloca nas costas o segundo saco, jogando à frente aquele que lhe ficaria mais visível para todo o sempre.

Eis uma criativa e precisa explicação do nosso comportamento cotidiano: ainda que não percebamos, mantemos em atividade constante o nosso pessoal e intransferível conselho de sentença, mesmo que possamos até dividir um pouco dos erros e exageros cometidos com o titã que nos entregou o fogo sem imaginar o tamanho do incêndio que provocaríamos.

Fato é que não conseguimos escapar desta prática que nos torna tão humanos. E que faz parte, inclusive, das nossas estratégias de sobrevivência numa selva de iguais. Julgamos e somos julgados, réus e magistrados do dia a dia. A não esquecer: os nossos defeitos estarão escondidos no saco que outros carregarão à vista e haverão de descobrir, exibindo-os ao mundo, quando lhes for conveniente.

Por óbvio, somos mais generosos com os que estão mais próximos a nós, no tempo e no afeto. Ao contrário, julgadores rigorosos e de pouca ou nenhuma misericórdia quando apontamos o dedo para os malquereres ou responsáveis por aquilo que consideramos erros pretéritos.

E, gente, é tão fácil quanto injusto uma geração julgar outra geração com os seus próprios valores, sem considerar tempo e circunstância, o que exigiria uma energia que já não pretendemos desperdiçar. Não trato aqui da perversidade de uns e outros, que esta é uma condição insuperável entre os bípedes sem penas.

O que me parece inevitável é que aqueles que nos sucederão também nos colocarão no banco dos réus com os seus olhos perscrutadores, como fizemos com os que vieram antes de nós. A triste e necessária constatação é a de que, assim como eles, não teremos como nos defender.

É apostar na sorte de encontrar quem veja em nós, ou em alguns de nós, valores que permanecerão intactos, que são anteriores a qualquer geração e que haverão de continuar a balizar bons julgamentos cotidianos após a nossa partida.

Afinal, as ideias envelhecem com os homens; os princípios, não.

Já o novo, no caso, não me apetece. O tribunal do facebook revela a existência de insuspeitas personalidades virtuosas, tanto quanto impiedosas, que o mundo ignorava. Talvez seja a manifestação mais explícita da velha hipocrisia nas sociedades modernas. O julgamento via redes sociais é célere, raso e cruel: diz mais de quem prolata a sentença do que de quem foi julgado.

No mundo ideal, poderíamos, na última curva, julgar a nós mesmos com a generosidade que nos guia quando o “réu” é um dos nossos, ao mesmo tempo que usaríamos a dureza com a qual avaliamos os nossos desafetos, cotejando para o veredito final.

Mas talvez nem isso valha a pena.

Deixemos a vocação para Deus aos profissionais do ramo.
(O título desta crônica é tomado de empréstimo a Émile Zola, autor da obra que buscou a justiça escondida covardemente nas costas dos homens do poder na França do século 19.)

 

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  • JEu

    Bom dia Ricardo… e que texto vc nos reservou para hoje… é hora de meditar e refletir sobre nós mesmos… nossas convicções e nossas virtudes e vícios… talvez, como diz o texto, sejamos (ainda) muito mais viciosos do que virtuosos… principalmente nas circunstâncias em que somos chamados ou, simplesmente, desejamos emitir nossa opinião sobre alguém ou algo… e, normalmente, esquecemos (ou colocamos de lado) o valioso conselho que nos foi dado há mais de dois mil anos: “não julgueis para não serdes julgados… pois com a mesma medida com que medirdes os outros vos medirão a vós”… Lógico, creio, não devemos condenar a ninguém… pois, como dito no texto, e também nas escrituras, somente à Deus cabe julgar as pessoas… porém, quando se trata de ações… principalmente aquelas que trazem prejuízos para as outras pessoas (e normalmente nós estamos incluídos nessas “outras pessoas”) aí, será que não é lícito pelo menos, não concordar?!!! Observando o exemplo de Jesus, em frente ao templo de Jerusalém, quando não concordou com o “comércio” envolvendo as coisas divinas… pois aquilo prejudicava as pessoas de boa e simples fé… principalmente as mais carentes (e a história parece se repetir infinitamente)… parece justo que possamos emitir nossa opinião… e aí, creio, o erro está em condenar as pessoas… e não os erros cometidos… lógico que erros são cometidos por pessoas e seus perpetradores, de uma forma ou de outra, sempre terminam por arcar com as consequências destes… Um exemplo mais recente trata-se do goleiro Bruno… nós queremos que ele seja indefinidamente condenado pelo ato que cometeu… tirando-lhe, até, os meios de se “ressocializar”… proibindo que tenha acesso ao trabalho honesto… e isso parece se repetir com a grande maioria dos egressos do sistema prisional… aí pensamos: não será a hora de lhes dar uma chance de reconstruir suas vidas?!!! Finalmente, também tenho em mente o seguinte ditado popular, tantas vezes repetido: errar é humano… agora, insistir no erro… aí ou é estupidez ou pura maldade… e a maldade, como dito no início, sempre precisa de correção, para não causar tantos prejuízos ao próximo… e aí, creio, é onde reside a verdadeira justiça… Bom domingo.

  • Nila

    O primeiro e principal julgamento você já fez. E isso é raro. Parabéns.

  • amorim

    Continuamos a mesma raça desde os primórdios, não mudamos nadinha,pelo contrário, pioramos, somos corporativista, apaixonados, tendenciosos e prontos a julgar as causas alheias do jeito e formas que nos convém, tudo isso porque fomos feito de uma matéria comum, fraca, segundo relatos bíblico.Li o comentário de Jeu, e fiquei meditando a respeito do goleiro Bruno, dizer que ele é inocente é inconcebível, entretanto as declarações que nós ouvimos de algumas pessoas me deixam triste, onde está o perdão a misericórdia,e aquela mulher que foi apresentada a Jesus pelos seus acusadores, pobre mulher se dependesse do nosso julgamento. O mestre nós deixou um bom ensinamento, nós é que não o seguimos. Domingo é um bom dia para meditar.

  • Joao TT

    RICARDO, … SOL e nuvens anunciando um BOM domingo!
    lembro da Lua re-NOVA n’areia da PRAIA e …”MENTE quem diz que é LUA velha” [A Lua], MPB 4
    Álbum VIRA virou – Ariola 1980, https://www.vagalume.com.br/mpb4/a-lua.html
    Aqui nas pedreiras do SERTÃO distante, estrelas derramam-se em via LÁCTEA iluminando nossa via CRUCIS sob céu quaresmal.
    Assim, ôIço ESTRELAS imitando brilhos d’ovos de PÁSCOA … “Aponta-se a LUA, humanos comuns apreciam o satélite e animais obedecem ao DEDO, sábios enxergam o UNIVERSO estrelado ao REDOR” [versão LIVRE de provérbio CHINÊS]
    https://pensador.uol.com.br/frase/MzIxODU2
    Fraterno ABRAÇO, um BOM domingo a [email protected]!

  • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

    QUANDO EU ACUSO A CULPA CONDENA OU ABSOLVE (?)
    Joilson Gouveia*
    Urge, pois, jamais olvidar ao escólio lapidar de seus aforismos e do sempre recorrido, recorrente e permanente Aristóteles, a saber:
    a) “Somos o que fazemos repetidamente por isso o mérito não está na ação e sim no hábito”;
    b) “A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais”;
    c) “A democracia surgiu quando, devido ao fato de que todos são iguais em certo sentido, acreditou-se que todos fossem absolutamente iguais entre si”.
    Ex positis (das coisas estabelecidas, assentado, ex positis, a sociedade está desfeita), comparando-os ao esposado por nosso literato caetés e tupiniquins ao assestar em sua brilhante, inteligente, percuciente e contundente crônica dominical “J’Accuse” (Eu Acuso), com fulcro no caso do Capitão Alfred Dreyfus, do famoso artigo de Emile Zola, que até hoje divide as opiniões sobre sua inocência ou sua culpa – ainda engatinhava o devido processo legal – The Due Process Of Law.
    Mas ao averbar: “Afinal, as ideias envelhecem com os homens; os princípios, não.”, e sobre esse ponto comento, a saber.
    As ideias podem até envelhecer com os homens, o que seria natural ou normal mesmo naqueles que amadurecem e têm princípios, mas nunca naqueles que cultuam muito mais ideologias que ideias, ideais e aos próprios princípios.
    Estes, por sua vez e a toda evidência, nesses últimos dez lustros, foram derruídos por ideologias arcaicas, insanas, inóxias e ignaras quando não agnósticas (gnosiológicas) enquanto Teoria do Conhecimento, na tradução ou busca da verdade que é a própria realidade. – ou mesmo da neológica pós-verdade! – Ver A Invasão Vertical dos Bárbaros, de Mário Ferreira dos Santos.
    Parêntesis, para discorrer sobre “pós-verdade”.
    Enfim, como bem nos adverte Rodrigo Constantino*, tudo isso ocorre com a colaboração de proficientes, profícuos e produtivos jornalistas, formadores de opinião ou como se autodenominam “agentes-de-transformação-social” – aqueles mesmos que pugnaram por Democracia e uma imprensa-livre, para exercerem a liberdade em noticiar os fatos e, por conseguinte, a verdade dimanada deles (“A única verdade é a realidade”, segundo Aristóteles) – senão vejamos, a saber:
    • “É possível enganar muita gente por pouco tempo, ou pouca gente por muito tempo, mas é bem mais difícil enganar muita gente por muito tempo.”
    • “Ironicamente, a mesma imprensa fala em “era da pós-verdade”, fingindo que não tem nada a ver com o fenômeno, que não tem deixado suas preferências partidárias falarem mais alto do que vossa excelência, o fato. Os manuais de jornalismo são rasgados em nome da agenda política, e os leitores sentem a traição, partem em busca de fontes alternativas de notícias e opinião.”
    • O jornalista deve ser transparente quanto à sua visão ideológica, em vez de tentar dissimulá-la. O público não é tão trouxa assim.
    • Não é fácil deixar a própria visão de mundo fora das análises, claro. Mas o jornalista deve ao menos tentar. E mais importante: deve ser transparente quanto à sua visão ideológica, em vez de tentar dissimulá-la. O público não é tão trouxa assim.” (Sic.) * In http://istoe.com.br/e-o-duplo-padrao-que-mata/.
    A rigor, de há muito tem-se olvidado ao escólio de Abraham Lincoln, a saber:
    • “Nenhum mentiroso tem uma memória suficientemente boa para ser um mentiroso de êxito” – “Podeis enganar toda a gente durante certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente”. Ou como dito por Bertold Brecht: “Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso”, e “Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este sim é um criminoso.” – in http://gouveiacel.blogspot.com.br/2017/03/qual-escolher-instrumento-ou-inimigo-do.html.
    Ora, mutatis mutandis (mudando-se o que se deve mudar, feitas algumas alterações), dizia-nos o sábio filósofo citado no proêmio deste breve comento: “A grandeza não consiste em receber honras, mas merecê-las”, paradoxalmente, assim, também, dá-se com a sentença condenatória ou absolutória que é exarada (e “recebida”, conforme merecimento) por quem julga o mérito da inocência ou culpa do julgado (e o condenado, no mais da vez, sempre alega inocência, dividindo opiniões, como até hoje em França, após artigo de Zola), mas as opiniões são conceitos de quem não conhecimento! Já dissemos outrora!
    Ademais, nas redes sociais (ou com os facebookianos) as opiniões são mais díspares, diversas, diversificadas e divergentes quando não intolerantes, incongruentes e incoerentes, mormente em suas opiniões coletivistas igualitárias salvadoras da humanidade e do mundo, no mais da vez, infensas ao nosso amado e olvidado Aurélio – se avexe não, “Peninha”!
    Para encerrar, quem fala a verdade não precisa de advogado, como discorremos in http://gouveiacel.blogspot.com.br/2016/09/quem-fala-verdade-nao-precisa-de.html, há quem tenha mais de uma dezena de adEvogados!
    Abr
    *JG
    P.S.: Dissera-nos Nelson Rodrigues: “É fácil amar a humanidade; difícil é amar o próximo.” – diante do monitor (ou telinha) excede e transborda esse imenso amor 😉 😀

  • Eduardo Lopes

    Excelente Ricardo. Uma pena que as pessoas envelhecem e envilecem. Uma pena que não somos juízes de nossas próprias consciências.

  • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

    Envelhecer não deslustra, e envilece senão a todo aquele que alimentou (e alimenta) à vilania latente, dissimulada e oculta; nem todo envelhecer é envilecer. Não há regra nem é a regra! Malgrado fora uma, teria exceções, sob pena de nem regra ser! Ou Não?
    Abr
    *JG