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TJ, MPE, TC e TRE mudam de comando no começo de janeiro

Quem foi que disse que 2016 começou este ano?

Nada disso.

Ele vem dos tempos em que nem nome tinha e nem sabia que ia sê-lo.

Porque a vida é assim, como num moto-perpétuo, cada dia gerando a sua noite, que será sucedida pela luz de uma nova manhã, mesmo que surja apagada, não apareça o sol de que precisamos – mas ele vem.

A sensação geral, que a todos nós contamina na virada do ano, de que nunca aconteceu tanta coisa ruim, tudo isso não passa de mais um truque do ilusionista a que chamamos de tempo.

O que ocorreu, e há se repetir e repetir e repetir, é que agora, como nunca, sabemos de tudo que é ruim acontecendo no mundo, em tempo real. Venha do interior da Tasmânia, surja em imagens enviadas, via rede, da Big Apple.

E já não somamos força e desejo para resistir a uma oferta tão generosa.

É tanto, e em tão pouco tempo, que temos a sensação de que vivemos várias vidas, simultâneas, mesmo que nenhuma delas nos pareça valer, de fato, a pena. Sim, porque só há penas a nos açoitar, não há perdão nem alegrias que mereçam a nossa mais singela recordação nesse instante.

Não, gente, o mundo não ficou pior em 2016. Tampouco pioraram as pessoas que o fazem do jeito que ele é. O nosso mau humor, eis o vilão, já não se contenta em nos tirar o sono – é preciso sugá-lo de onde ele ainda encontra o berço para se aninhar.

E cá para nós, sem sintomas de idiotia, imagino: foram as boas coisas – lembra de alguma? – que nos fizeram resistir, trazendo-nos ao momento em que até acreditamos que a Terra vai girar, veloz, sacudindo, em meio ao espaço, a sujeira acumulada em seu corpo meses a fio.

É claro, 2016, se levarmos a sério o calendário, não foi o melhor ano das nossas existências. Mas qual foi? Eis um bom passatempo: tentar encontrar, com convicção, uma história escrita em linha reta na pedra da memória, sem rascunhos, sem ajeitamento na ordem dos acontecimentos, plena de festas na alma.

Se 2016 nasceu lá atrás, quando a semente dos anos em curso estava em brotação, será do nosso presente, que há de nos parecer tão brevemente um passado remoto, que o curso das águas surgirá indomável, incontível, im-pre-vi-sí-vel.

Assim é a história do homem e da humanidade.

Que 2016 não se meta a besta, achando que está na iminência de cortar a fita de chegada. Qual o quê! Ele não passará. Ficará por aí, vagando feito um zumbi, invisível, varando noites sem sono, dias sem repouso, até que dele restem apenas algumas linhas, pobres linhas, escritas em literatura ruim.

Quanto a mim, mesmo que já voando baixo, as asas feridas, ainda assim, eu, passarim.

 

(Durante o mês de janeiro estarei em férias. Se tudo der certo, em fevereiro estarei de volta. Bom ano novo para todos.)