Qual o significado da palavra que dá título a esta crônica?

Sinto muito, caro leitor, estimada leitora, mas presumo que a resposta está errada: vai muito além da mentira e é algo bem próximo da estupidez.

A “pós-verdade” foi escolhida pela Oxford Dictionaries, da respeitada universidade inglesa, como a “palavra do ano”, aquela que melhor representa os tempos ora vividos.

Significa, em última análise, o desprezo pelos fatos objetivos, em benefício de crenças pessoais, preconceitos e emoções, que terminam por definir os rumos da chamada opinião pública, cada vez mais volátil. A racionalidade vai para a lata do lixo, quando muito sendo mandada para a reciclagem de orgânicos.

Não que a Humanidade tenha tido momentos excepcionais de lucidez e racionalidade: somos e continuamos sendo os mesmos homens da caverna, a insuperável sopa de emoções que caracteriza a espécie.

O que mudou?

Vivemos, é o que dizem os estudiosos e especialistas do Reino Unido, um período em que não cabe mais a discussão racional sobre temas os mais diversos, chegando ao paroxismo quando entra em campo a questão política: eis a tal pós-verdade.

Como ninguém sabe para onde vai, todos sabem tudo – e gritam, sem qualquer hesitação.

Desconfio que existe uma relação direta com a internet. Não por culpa dela, o que é óbvio, mas tendo a acreditar que não estávamos biologicamente equipados para lidar com o novo e já indispensável meio (que virou fim para muita gente). Torço para que as novas gerações tragam alguma mutação genética mais adaptada ao convívio com a rede mundial de computadores, sem a fúria na ponta dos dedos que teclam (vivenciamos a era dos polegares).

Seres tribais e territorialistas, encontramos na internet o atalho para nos inserirmos entre “os nossos”, sem as fronteiras físicas, que deixaram de existir. Ao navegarmos na rede, nos deparamos com aqueles com os quais nos identificamos à primeira vista, numa velocidade que seria impossível antes da grande revolução tecnológica.

E se o ódio une mais do que o contrário?

Não creio que já tenha sido diferente na curta história do Homem na Natureza.

Formamos pelas conexões, que substituíram as relações pessoais e profissionais (Zygmunt Bauman), as novas e incalculáveis multidões, as massas virtuais, com todas as características dos ajuntamentos humanos reais, empurrados por emoções arrebatadoras, disseminadas com sofreguidão e na velocidade da luz.

“Os sentimentos da massa são sempre simples e muito exagerados. Assim, a massa não conhece nem a dúvida nem a incerteza. A suspeita manifestada logo se transforma em certeza absoluta, um germe de antipatia se transforma em ódio selvagem”.

O texto acima é de Sigmund Freud, publicado em 1921, muito antes, portanto, do surgimento do Vale do Silício, e descreve com particular precisão o que vemos e vivemos hoje. E por uma razão simples: é mais um mergulho do genial charuteiro na previsível alma humana.

Disse ainda: “Pelo mero fato de pertencer a uma massa organizada, o ser humano desce vários degraus na escala da civilização. Em seu isolamento, era talvez um indivíduo culto; na massa é um bárbaro, um ser instintivo” (o pessoal de Oxford parece mesmo ter razão).

O contágio imediato proporcionado pela internet nos trouxe a pós-verdade, com seus boatos, mentiras e maledicências tomando qualquer espaço que possa vir a ser usado pela nossa parca racionalidade. Principalmente porque não há disposição para a troca de informações, para o contraditório sem xingamentos, ou para a tolerância com as diferenças. Uma reflexão crítica, principalmente se proposta à tribo “inimiga”, termina por desaguar no que o escritor e pensador Octavio Paz chamou de “Grande Bocejo”. Isto, é claro, se o final da história for pacífico (sem trocadilho).

O próprio Zygmunt Bauman define este momento da humanidade como um “interregno”: o intervalo entre o que fomos até recentemente – e que nos parecia tão sólido – e aquilo que seremos, depositando o apurado na conta do imponderável no mercado futuro.

Apesar de crer que a paz mundial, ou a ausência de guerras entre as grandes potências, está garantida pela “democratização” da bomba atômica (!), talvez seja mesmo o caso de já buscarmos uma definição para outra palavra: pós-eternidade.

 

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  • Há Lagoas

    Talvez Pôncio Pilatos nos indique o quanto somos estúpidos em nossa percepção sobre a vida e seus valores. A pergunta do procurador romano foi: “o que é a verdade?”
    Me entristecia quando ouvia de meus professores que existe o termo “verdade absoluta”.
    A verdade cabe em si mesma, e por si só se define.
    Quanto a academia, quem sou eu para contestá-la, mas posso ao menos rejeitar tal “conhecimento”.
    Pois é Ricardo, creio que a verdade liberta, inclusive nos legando a sabedoria em detrimento do “conhecimento”.
    Um bom domingo a todos!

  • Alfredo

    Bom dia! A beligerância está no dna humano.”o homem é lobo do homem”.Onde o socialismo, que tenta padronizar comportamentos, deu ou dará certo? Foi-se Fidel, mito e homem.Déspota, tirano,ditador de esquerda, “pai dos pobres”.Melhor que Fulgêncio? “A verdade é subjetividade” A mídia e a História cunham a pós.Agora é TRUMP!!!!!Merecemos!!!!!

  • Joao TT

    RICARDO, um BOM domingo c’as verdades LITÚRGICAS.
    SIM, ‘verdades’ recauchutadas a cada ÉPOCA … “ALERTO: estou apenas COMEÇANDO! … CONDENEM-me. Isso não importa. A HISTÓRIA me absolverá. [Fidel CASTRO, apud Demétrio]
    … “ATENÇÃO/ Precisa ter OLHOS firmes/ P’este SOL/ P’esta ESCURIDÃO [Caetano, 1968]
    ENTÃO, como dinheiro POUCO a gente tem MUITO em St’Ana, a GRANA curta é suficiente p’um TRAGO doce na barraca hospitaleira pós-EXPEDIENTE no bem equipado posto de SAÚDE na BARAÚNA na periferia SERTANEJA no Brasil [Que TEMER?]
    … “ATENÇÃO/ Tudo é PERIGOSO/ Tudo é divino MARAVILHOSO/ Atenção para o REFRÃO [ibidem, com GAL]
    https://www.vagalume.com.br/gal-costa/divino-maravilhoso.html
    Bem LONGE do Hospital Regional da CAJARANA do Min Zé SERRA e M DAVI-2002 prefeito-, amigos BEM vindos de CUBA, atenciosXs e preparados MÉDICxS prevenindo para o MELHOR da vida, comem e moram na magra COHAB Velha evitando gorduras e álcoois nas mesas de Zé de PEDRO pertinho e de MÁRIO da Pitú no centro.
    Dos 3 mil MÉDICxS em CUBA 1959, agora são quase 100 MIL na ilha.
    http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2016/11/26/fidel-castro-morre-aos-90-anos.htm
    SEM Fidel na FÉ, apenas RUI – cairá CUBA um tanto $-TRUMP-eada? … LOVE trumps HATE [Madonna, o AMOR supera o ÓDIO]
    … “uma PONTE imaginária entre o presente melancólico e o passado de loucas esperanças. Não é possível minimizar o IMPACTO da sua saída de CENA: agora, não sobra quase NADA. [Demétrio MAGNOLI], 27nov16
    http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/11/1836021-sem-fidel-sobra-quase-nada-do-mito-do-baluarte-comunista.shtm

  • JEu

    Talvez o problema real seja o de termos a coragem e, ao mesmo tempo, a tranquilidade de encararmos a “verdade” na opinião dos outros… até algum tempo atrás a “verdade” era algo em que “deveríamos” acreditar sem o direito de contestar… hoje em dia a “verdade” é aquilo em que cada um pensa e, como somos mais livres agora, podemos expressar nossas “verdades”… creio que o único meio de apaziguar todos os pensamentos conflitantes é aceitarmos a recomendação que nos foi deixada há mais de dois mil anos atrás: amai-vos uns aos outros… fazei aos outros o que gostaria que se vos fizesse… Bom domingo, Ricardo…

  • Frederico Farias

    Danou-se, no outro lado da moeda, Goebbels
    seria pré-mentira, a própria ou pós-mentira?
    Estou confuso.

  • Zaneli Malta Prata

    Quando li o título do texto, eu, que há tempos lhe cobro uma análise do papel da mídia na manipulação da opinião pública, sobretudo por meio da publicação de notícias falsas ou meias verdades, pensei ter finalmente chegado esse momento. Ledo engano. O texto analisa a manifestação da pós-verdade apenas sob o viés da internet como se as pessoas que propagam suas verdades absolutas nas redes sociais não formassem sua convicção, muitas vezes, nos meios de comunicação de massa. Continuarei aguardando.

  • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

    A ÚNICA VERDADE É A REALIDADE – ARISTÓTELES
    Joilson Gouveia*
    Há milênios e milênios idos, um cara simples e iluminado pensador grego chamado Aristóteles, disse-nos, sobre a verdade: “A única verdade é a realidade”.
    Portanto, sendo ela, a realidade, “a única verdade” por ser real ou “o conjunto de todas as coisas reais”, a qualidade do que é real ou a existência real de fato, concreto, não-abstrato ou imaginação simbólica ou criativa aos que amoldam-na aos seus olhos vistos: reais ou virtuais.
    Muitos creem nos seus pontos-de-vista como sendo verdades. A idiossincrasia fez da opinião, na opinião deLLes mesmo, a verdade em que criam, olvidando que opinião é conceito de quem não tem conhecimento – cada um ou cada qual passou a ter a sua própria e como sendo ela as “suas” verdades.
    De outro lado, olvidou-se às palavras D’Ele: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” e “conhecerás a verdade e a verdade vos libertarás”, mas houve quem dissesse que “uma mentira repetida mil vezes se tornaria verdade”, como se fora possível alterar, modificar, escamotear ou ocultar e omitir à própria realidade.
    E o pior: nisso muitos creram (e ainda creem) piamente nessa ilógica, insensata, incoerente e inescrupulosa ou criminosa inverdade, daí vivem a repeti-las tal qual papagaios, mormente os lobotomizados iludidos por “pensamentos críticos” de seus “educadores” ou exímios prestidigitadores avessos à realidade!
    Dissemos, repetimos e reiteramos, para muitos deLLes ou todos eLLes a “verdade é vermelha”, a saber:
    a) http://gouveiacel.blogspot.com.br/2014/12/a-verdade-e-vermelha.html;
    b) http://gouveiacel.blogspot.com.br/2015/11/um-povo-assediado-numa-nacao-espoliada.html;
    c) http://gouveiacel.blogspot.com.br/2015/11/a-verdade-passara-ser-crime-hediondo.html, e;
    d) http://gouveiacel.blogspot.com.br/2013/11/a-verdade-e-uma-moeda-e-sempre-teve-tem.html.
    Pasmem! Até criaram uma Comissão Nacional da Verdade; lembram-se?
    Nada obstante a “pós-verdade” ter sido escolhida a “palavra do ano” ou malgrado Sir Sigmund Freud ter assestado o texto transcrito pelo nosso literata caetés, a saber:
    • “A “pós-verdade” foi escolhida pela Oxford Dictionaries, da respeitada universidade inglesa, como a “palavra do ano”, aquela que melhor representa os tempos ora vividos.
    • Significa, em última análise, o desprezo pelos fatos objetivos, em benefício de crenças pessoais, preconceitos e emoções, que terminam por definir os rumos da chamada opinião pública, cada vez mais volátil. A racionalidade vai para a lata do lixo, quando muito sendo mandada para a reciclagem de orgânicos” (…)
    Ora, quem tenta ou tem feito a “opinião pública” senão os entelequituais “inteligentes” membros da mídia ou da própria imprensa mediante suas idiossincrasias, onde muitos seguem cegamente à linha editorial ideológica ou ditam seus textos conforme suas verves criativas (virtuais) quase reais, mas avessas à realidade?
    Temos dito: os fatos falam por si e contra eles não há argumentos, e por mais loquazes, eloquentes, mordazes e mendazes dialéticas ou reiterem em suas litanias, cantilenas e ladainhas que sejam ou se revistam não alteram à própria realidade nem à pura verdade que dela dimana, decorre, transcende e revela!
    O mundo virtual, em nada virtuoso, não substitui ao real, prático e concreto mundo da realidade, que se funda nos fatos históricos, passados, presentes e futuros, por assim dizer!
    Enfim, “enquanto tivermos estudantes que não estudam e pensadores que não pensam e trabalhadores que não trabalham” o avesso jamais será direito! É, pois, chegada a hora e o tempo de um revertério, para sairmos da estagflação e degradação em todos os sentidos e aspectos, as quais nos impuseram nesses seis lustros.
    Abr
    *JG

  • treal

    Estamos vivendo no Brasil a pós-mentira.