A morte do “Capita” Carlos Alberto Torres fez com que todos os canais de televisão – especializados ou não – apresentassem aos borbotões cenas do futebol pelo qual eu me apaixonei desde a infância. Lances de rara plasticidade e que não me parecem que possam ser repetidos com alguma naturalidade. E olha que temos gênios da bola de hoje capazes de lances espetaculares.

Mas o esporte jogado agora, ainda que tenha o mesmo nome, é outro, completamente diferente. A velocidade, a intensidade, o contato físico cada vez maior, tudo reflete os tempos em que vivemos – e não poderia ser diferente.

A sensação que fica, revendo a turma do Capita, é a de que o futebol era praticado em slow motion, com os artistas podendo pincelar, lentamente, um quadro que teria lugar destacado na nossa galeria da memória. Podemos até especular, por puro romantismo, que o adversário menos talentoso gostava de ver o esteta a criar sua obra.

Melhor ou pior?

Não importa. Era diferente. Cada geração com o seu quinhão.

Tudo no mundo nesta quadra da existência humana, e em nós mesmo, tem pressa. E ela termina comandando a nossa vida: no trabalho, no lazer e na contemplação. Ainda que contemplação seja uma palavra fora de moda, e o seu exercício cada vez mais raro.

No documentário Chico: um artista brasileiro, o compositor que marcou a vida de tantas gerações afirma que a música que se ouve hoje no Brasil é mais representativa do gosto médio do nosso povo. Ele há de ter razão, mesmo que isso não seja exatamente um elogio.

Cá pra nós, o bregão sempre existiu, vendendo muito mais do que os grandes nomes da chamada MPB. Mas, então, pelo menos sabíamos da existência de Chico, Tom, Vinícius, Paulinho da Viola, Caetano, Gil… Mais do que isso, nós os amávamos, pela arquitetura de suas canções, que eram compostas por melodia, harmonia e letra. O que restou desta arte se abriga em nichos alternativos.

Se fosse falar de uma “nova música”, Chico se reportaria ao hip hop, ao rap, que seguem o comando do ritmo frenético, que aboliu a melodia, tornando-a descartável por ocupar espaço demais. É preciso ganhar tempo, também aqui, sem transportar as emoções para recantos mais profundos da alma.

Quem gosta dessa nova manifestação cultural não há de se entregar em encantamento aos acordes e versos de Todo sentimento (Cristóvão Bastos/Chico Buarque) ou de Eu te amo (Tom/Chico). Estamos, mais uma vez, falando de coisas diferentes, que atraem públicos distintos, mesmo que tenham o mesmo nome.

Mário Vargas Llosa – em A civilização do espetáculo – acentua que a publicidade estabeleceu o ritmo do cinema, do jornalismo, de tudo, enfim, que é fabricado na linha de montagem da indústria cultural.

É este ritmo frenético, que termina por dispensar qualquer reflexão sobre o que se vê no noticiário cotidiano, por exemplo, que forma um montão de quebra-cabeças cujas peças nunca se encaixam. O melhor é que deixemos pra lá, que amanhã vem mais do mesmo, e a gente nem vai se lembrar do que viu hoje.

O cinema produz películas (que coisa antiga!) em que a velocidade dos cortes, com diálogos cada vez mais curtos, vai ao encontro, sem riscos, do gosto médio universal. Os grandes lançamentos conquistam meses de mídia intensa e o eterno esquecimento – como se nem tivessem existido (louve-se a resistência do cinema argentino).

Tenho feito, nesses últimos meses, um exercício que muito tem me agradado. Ando revendo filmes longuíssimos, de três, quatro horas de duração, tomadas lentas, diálogos fartos, e vos confesso: esta permanência contemplativa à frente de enredos mais intrincados me tem feito um bem imenso.

Uma sensação que só se assemelha à de ler um daqueles romanções russos de 600, 700 páginas, que nos puxam para dentro da história, e dela não haveremos de sair da mesma forma que entramos (parafraseando o poetinha Sidney Wanderley).

É a mansidão da vida vista pela lente da minha própria câmera lenta.

Na verdade, eu necessito de poucas coisas para me sentir bem, ainda que precise muito dessas coisas.

 

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  • JEu

    Bom dia, Ricardo. A vida de hoje, realmente, está num ritmo frenético, como disse no texto. Até parece que existe “uma coisa estranha no ar” como que avisando que o tempo que temos é deveras “limitado” (muito embora não consigamos entender ou definir o que é na realidade) e, por isso, os jovens estão como que “vivendo” tudo o que podem (mesmo que sofrendo consequências muitas vezes desastrosas) como para compensar essa sensação de “exiguidade” temporal… no nosso tempo, creio, ainda sentíamos que havia “algum” tempo para viver intensamente cada momento, esticando-o com o prazer de buscar sorvê-lo em todos os seus escaninhos… o que será que realmente está acontecendo, ou por outro lado, o que está “por vir”?… Excelente texto, para um domingo diferente… muito embora tenhamos, ao que parece, mais do mesmo… Bom domingo, Ricardo.

  • sebastião iguatemyr cadena cordeiro

    TAMOS JUNTOS . . . MATÉRIA ! EM GÊNERO , NÚMERO E GRAU …

  • Joao TT

    Caro RICARDO, … SIM! … “Era DIFERENTE. Cada geração com o seu QUINHÃO.”
    o FUTEBOL chega ao BRASIL República em 1895 com BOLAS rústicas de ponteado EXTERNO exigindo TOUCAS nas CABEÇAS.
    _ https://pt.wikipedia.org/wiki/Futebol_do_Brasil
    Em St’ANA, atletas esguios do IPANEMA – o Canarinho do SERTÃO desde 1923 alimentam a OUSADIA de Charles MILLER entre Londres e SãPáLIo.
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Ipanema_Atlético_Clube
    Aqui no SERTÃO, ao REDOR d’O FERRAGEIRO dsd 1922 antecipávamos LUCROS futuros na rota do RECIFE.
    http://www.ferrageiro.com.br

    MeRmo DES-preparado pU convívio cA FARTURA pós DOIDÍCIAS Mundiais (1914-18 e 1939-45), graças a TECNOLOGIAS de produção/ armazenagem/ preservação de ALIMENTOS. É verdade!
    No BRASIL Colônia conviviam em PAZ carnaval e CACHAÇA no SERTÃO sem PADRES desde os tempos … “do PAPA Gregório XVII (1831-1846)”
    http://www.maltanet.com.br/colunas/djalmacarvalho/3247
    Costumes PROFANOS tolerados pelo Pe TEOTONIO (1855-1929) pároco LOCAL 1883-88 (Brasil IMPÉRIO) em… “St´ANA – ARRAIAL 1787 do Pe Fco Correia/ CAPELA/ pra Festas JUNINAS do abEstado fazendeiro MARTINHO V R”

    E até hoje a TROÇA anarco-carnavalesca BACURAU da Rua NOVA comemora a DEMOCRACIA no BRASIL com 52% das pessoas com EXCESSO de peso/ OBESIDADE. Nos EEUU/ México com GORDINHOS ultrapassando 70% da população, EPIDEMIAS de alegrias e FELICIDADES em Latin´América e EUROPA, Austrália e países ÁRABES – até na CHINA se ostenta COFRINHOS roliços, de acordo com o Dr DRAUZIO.
    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2016/10/1827296-indice-de-mortalidade-esta-mais-ligado-a-gordura-na-cintura-do-que-a-aumento-de-peso.shtml
    http://www.maltanet.com.br/literatura/exibe.php?id=1365
    Uma TRADIÇÃO conforme aos padres CAPITULINO (1990´s-20), BULHÕES (1930´s-50) e CIRILO (1950´s-80) – 30 anos CADA no Brasil REPÚBLICA.
    http://www.maltanet.com.br/eventos/festadesenhorasantana/paroquia.htm

  • Telma

    Nunca me arrependo de lê-lo, principalmente aos domingos.
    Mais uma vez, serenidade e sabedoria.

  • Flávio Luís

    Excelente reflexão, nobre jornalista.

  • Alfredo

    Muita coerência. Bom domingo! PS: MINIMALISMO e não COMUNISMO.Parabéns! Bandeira vermelha (cartão) para o socialismo de casaca.Parafraseando Millôr; no Brasil,quando se organiza , acaba!

  • Luiz R S Filho

    Olá Ricardo, belíssimo texto. Nada substitui nesta geração o período compreendido do meio pro final da década de 60, toda a década de 70, e o início da década de 80…..depois disso a humanidade tomou um rumo frenético e muito materialista (escolhido por ela própria) e isso mexeu com os sentimentos,com as emoções. Mas somos mutáveis evolutivos…e as próximas existências significaram mudanças ainda muito mais robustas no sentido regenerativo, onde o espiritual prevalecerá compulsoriamente neste Planeta. Abraços e bom domingo.

  • MARCOS ANTONIO

    RICARDO MANDA O CICERO ALMEIDA FAZER UM TESTE, IR A PARTIR DE AMANHÃ FALAR COM OS RENANS PARA VER SE ELE E RECEBIDO.