Olho para o espelho, às vezes, e vejo com alguma alegria os meus cabelos brancos. São poucos os que restaram, é verdade, mas são meus e contam alguma história, mesmo que sem grande importância para o grande público. E eles mostram-se como a prova de uma existência que já conta mais de cinco décadas.

Não tenho inveja dos moços porque já fui um deles e sei quanto é bom ser jovem e ignorar, solenemente, que a vida corre numa velocidade imensurável. A gente vive, então, e somente isso já é o bastante. O sinal visível, agora, é de que eu cheguei até aqui, o que não é pouco, olhando em retrospectiva.

Guardo lembranças, de variados sabores, das quais não posso me livrar. Estão entranhadas nos meus ossos, misturadas ao meu sangue, inacessíveis aos bons e aos maus venenos. Outras tantas vão se avolumando pelo incerto caminho que me levará até aonde eu não sei, salvo a parada obrigatória, que não avisa chegada.

De que servem os meus cabelos brancos? Não posso me imaginar, hoje, sem eles, matéria morta em corpo ainda hígido, a dar silhueta a uma tela já um tanto arranhada: a face de um sujeito vivido, com saudades e alguma esperança.

Não me sinto dividido entre a vontade de seguir adiante e o desejo de voltar atrás. Vou. Arrependimentos, todos carregamos. Mas se existem é apenas porque constatamos depois de posto o presente que aqui e ali bem que poderia ter sido diferente, o que a razão só nos cobra depois das experiências que vivemos. Sem elas, não haveria comparações, muito menos reparações.        

Não creio que a vida profissional e a vida pessoal possam se bifurcar numa encruzilhada do cotidiano, contrariando uns tantos que alardeiam saber fazê-lo. Uma e outra brotam da mesma fonte. Essa que nos torna um ser sem cópia, incomparável. Fora isso, algo seria falso, postiço, sem a presença, em dado momento, da única alma de que dispomos a nos guiar. Eis a nossa natureza, contra a qual não teríamos a mínima chance num improvável embate.

É nessa peça sem ensaio que se forma continuamente – e nunca definitivamente – o nosso personagem no mundo. Este existiria sem mim, eu bem sei e com algum despeito, mas o inverso só seria possível acontecer na arte, com seu poder de moldar ao gosto, com direito a preparos e consertos.

De tudo o que possuo, o mais indivisível bem é o amor me move. Dou-o por inteiro aos que amo, ainda que pareçam raros, como os cabelos brancos que enxergo no espelho.

Biu de Lira e Vilela 'caçam' técnico para a Educação
Renan, o Ibope, o tempo e o vento
  • tania

    Concordo com vc, meus cabelos brancos me dão a sensação que a vida é bela, que preciso amar mais e sofrer menos…..não tenho saudade da juventude pois ela foi intensa, com tudo que me foi dado e conquistado através dos anos…portanto, cabelos brancos são na verdade o caminho da vida!!!

  • sebastiaoiguatemyrcadenacordeiro

    IRRETOCÁVEL ! BELO ! REAL ! TOCANTE !
    INVEJÁVEL ! INSPIRÁVEL ! BRAVO,MATÉRIA !

  • maria auxiliadora silva de araujo

    Que sensibilidade, que tato no trato de questão tão simples, para uns, e de tão grande relevância para outros tantos…

  • Ubirajara Fernandes Vieira (ubirajarafvieira)

    Jornalista Ricardo Mota, belo texto. Cabelos brancos tenho os meus. E sinto orgulho de tê-los. Pois são experiências vividas. E concordo quando você diz: De tudo o que possuo o mais indivisível bem é o amor que me você.

  • Álvaro Antônio Machado

    Belo texto, amigo. Nesta vida tão rápida, o que contradiz com a passagem do tempo é nossa capacidade de amar verdadeiramente. E esse amor, distinto dos cabelos, não embranquece nem colore, porque é puro.

  • Álvaro Barboza de Oliveira

    Ricardo,carrego com meus cabelos brancos que já os tenho em profusão, saudades, experiências e vivências que hoje quando posso procuro repartir com outros. Apesar dos meus brancos cabelos cultivo, apesar de tudo, a fé e a esperança no caminhar do homem sobre a face da terra.

  • Fernando

    Perfeito!

  • Álvaro Barboza de Oliveira

    Ricardo, excelente! Quanto aos brancos cabelos, que já os tenho em profusão, quando em contemplação consigo perceber não só minha história,minha vida e minhas esperanças que nunca as perco. Consigo perceber agora, com mais clareza, que meus brancos cabelos carregam consigo minhas experiências, minhas vivências e minha fé no destino da humanidade, apesar de tudo.

  • JEu

    Experiências vividas são tesouros guardados no íntimo da alma, que o espírito leva para sempre em seu futuro…

  • Zanza

    O Amor, “Dou-o por inteiro aos que amo…”: esta é a razão de respeitarmos nossos fios brancos!
    Só em termos a capacidade de AMAR com verdade(mesmo a quem não retribuiu com o mesmo esmero) já justifica todo o nosso encantamento pela vida.
    Desçamos as escadas com a elegância da maturidade.

  • Ubirajara Fernandes Vieira (ubirajarafvieira)

    Jornalista Ricardo Mota, belo texto. Cabelos brancos, tenho os meus. E sinto orgulho de tê-los. Pois são experiências vividas. E concordo quando você diz: De tudo o que possuo o mais indivisível bem é o amor que me MOVE.

  • Joilson Gouveia Bel&Cel RR

    Peninha, és um literata das notícias que sabes afagar as letras e formar palavras, frases e textos belos, sensatos, coerentes, pertinentes, procedentes e, o que é bem melhor, verdadeiros, reais e inexoráveis!
    UMA OBRA DE ARTE!
    Só para polemicar: o que dizes daqueles que tentam negar a tudo isso PINTANDO, MAQUIANDO ou DISFARÇANDO o tempo que lhe prateia a moldura do rosto?
    Esqueça-se das mulheres; fale-me só dos homens que assim procedem, sim?
    Abr
    JG

    Resposta:

    Quem tenta – homem sendo – enganar o tempo só consegue ludibriar a si mesmo.
    É quando o ridículo invade a nossa sagrada morada sem nem ao menos bater à porta.

    Saudações encanecidas,

    Ricardo Mota

  • Anthony

    Creio que se pudess contrariar a natureza,aprisionaria o tempo e nunca envelheceria.Seria uma espécie de Dorian Gray. Mas o tempo é implacável e avança de forma avassaladora contra mim.Impiedoso,leva tudo sem se importar com minhas dores.E me oferece tão pouco em troca: uma existência vil,efêmera e idiota.Para terminar uma passagem escrita pelo escritor irlandês Oscar Wilde: “Eu irei ficando velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho… Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!… Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!” (Para continuar jovem). Bom domingo a todos.

  • Eliane Oliveira

    Adorável,belo, perfeito, inteligente te admiro a cada dia, Parabéns!