Não dá para esquecer aquele ano de 1975. As turmas do terceiro ano do velho e saudoso Sagrada Família não eram para amadores. Pintávamos o que o diabo, em seus melhores dias – e contrariando o nome do colégio -, não encararia sem o rubor da vergonha. 

Foram meses de muita bagunça, fugas coletivas pelas janelas das salas de aula, paqueras, chistes criativos e bate-bola, quase todos os dias.

Havia o “time dos magos”, que não imaginem fossem ilusionistas ou prestidigitadores, mas sim tipos de fazer inveja aos etíopes que ganham as maratonas pelo mundo afora. Todos bons de bola – estávamos convencidos disso – e “gomeiros”, denominação que se dava então aos hoje jogadores marrentos.

Nossa fama corria por outras escolas, e eis que, um dia, fomos convidados a fazer uma partida de futebol de salão em um colégio estadual que ficava na Pajuçara.

Era um sábado pela manhã, por volta das nove horas, quando chegamos à quadra adversária. O grupo de magricelas não inspirava medo aos rivais: Eduardo, eu, Alexandre “Calcita”, Cráudio, Creusa (tudo com “r” mesmo) e Pajé.

Iniciada a peleja, em dez minutos já havíamos aplicado um sonoro 3 x 0. Este locutor que vos fala foi o implacável autor dos tentos inesquecíveis. Sim, porque não há como apagar da memória o desenrolar da (quase) tragédia.

Minha autoestima e orgulho de “craque” se lançaram às alturas, e eu ali, imaginando que as meninas do colégio, olhos vidrados nos lances de pura arte que protagonizávamos sobre o quadrado de cimento pintado, estavam babando por aquele cabeludo – esquelético, é verdade – que sabia o fino da bola.

Foi quando ouvimos o grito da torcida indócil: “Bichas! Vão apanhar”. Nós?! A partida acabou sem o apito final. O time da casa não nos ameaçava, mas a galera começou a balançar perigosamente a tela de arame que nos separava dela, circundando a quadra. As feras estavam do lado fora da jaula, pelo que nos pareceu com tanto realismo naquele quarto de hora que sentimos como uma eternidade.

Tratamos de esperar, trêmulos e amedrontados. Fazer o quê? Não havia por onde nem como fugir. Estávamos encurralados.

O coro foi ficando cada vez mais alto, o que terminou por chamar a atenção do diretor da escola. Que homem bom! O que veio a se comprovar quando ficamos frente a frente. Ele nos reconheceu: havia sido nosso professor no Sagrada e de lá saiu por não suportar as nossas iconoclastias. Nós o havíamos apelidado de Seu Vilão, um personagem de programa infantil da TV, na época.

Pois foi o Seu Vi…, quer dizer, o nobre e piedoso professor, quem nos protegeu e nos escoltou ao ponto de ônibus, de onde partimos – correndo – em velocidade “boltiana”. Só pegamos o transporte na parada seguinte, mas foi o vilão quem salvou os mocinhos.

Meus dez minutos de consagração futebolística se encerraram de forma melancólica, principalmente para quem já esperava os aplausos e um piscar de olhos femininos.

Se não servi para ser uma nova versão das “Feras do Saldanha” (da seleção de 1970), hoje penso que seria frustrante me despedir da vida sem saber exatamente qual é o talento que carrego e nunca me foi revelado. 

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  • Sérgio Roberto Menezes

    Bom dia a todos, meu amigo suas lembranças sempre fazem parte de nossas lembranças mesmo sem ter participado delas, como amante do futebol e do rachinha principalmente (todas as terças a noite) e iniciado por nada mais nada menos que Roberto Menezes (meu sobrenome diz tudo) meu tio, não passou um aperto deste, lembro que certa vez jogando pelo Marista contra o time de Juvenôpolis saímos de lá corrido a sorte era que o ônibus estava próximo.

    Quem não passou um aperto deste não teve infância/adolescência, abraços.

  • ARTUR

    Ricardo, tinha uma turma conhecida que frequentava a quadra da CSM e era respeitada em Maceió e tinha um goleiro que na época era o melhor da região chamava-se XEXEU. Boas lembranças essas.

  • Anthony

    Rememorar momentos felizes, vividos no passado, nos torna pessoas mais fortalecida no presente.Isso porque nosso corpo acompanha aquilo que se processa em nossa mente,intensificando somaticamente,tanto a dor quanto o prazer.Por isso é tão importante adotar uma atitude positiva,mesmo diante de situações limite.Aliás,é diante destas que devemos manter a serenidade.A propósito, o seu Vilão era um personagem “mal”, de um programa infantil chamado “Gente Inocente”, exibido pela Rede Tupi,nos anos 70.Bom domingo a todos!

  • Noélia Costa

    Colégio Sagrada Família,estudei lá,muito bacana ,participava das quadrilhas juninas,dos eventos ,adorava aquela escola,parabéns pelo texto!Aproveito para dizer que nosso evento do dia internacional do combate às drogas foi lindo demais,estiveram presentes 928 pessoas no centro de convenções,as palestras foram muito educativas e as peças teatrais também,foi tudo feito com muito amor e comprometimento.Agradeço de coração o apoio da TV PAJUÇARA ,através do pajuçara social!

  • Silvania Silva

    Saudades dos Sagradenses..Costumo dizer que quando Sagradense se encontra é uma festa. Ricardo Mota em seu texto com maestria externou o jeito Sagradense…Parabéns. Visitem a comunidade no facebook: https://www.facebook.com/groups/145217052192187/?fref=ts

    ex-alunos do Colégio Sagrada Familia de Maceió

  • R

    Amigo uma vez tivemos um problemas desse com uma turma “do conjunto pajuçara”foi um corre corre, e o azar foi não tivemos tempo de pegar o ônibus, mais apesar dos empurra empurra, tivemos infância e estamos aqui, ótimas recordações. Um abraço.

  • Ismar Nascimento da Silva Filho

    Estudei no saudoso Colégio Sagrada Família(concluí em 1985). Tenho boas lembranças de uma época que não volta jamais. Parabéns pelo texto.

  • Zanza

    Como e maravilhoso termos a sensação de segurança e proteção ,principalmente,nas situações em que ficamos tão pequeneninhos e atemorizados!! Bom domingo a nos.

  • Fernando Dacal Reis

    Ricardo,
    “Tempo não volta mais saudade…”, vivemos nossa juventude numa época em que os “entendidos” ainda não tinham criado o BULLING (não sei nem se escrevi certo) e que menino podia levar palmada, mas, recordar de nossas traquinices e do velho Sagradão é muito gostoso, inclusive a saudade dos que já nos deixaram como: Pajé, Nego (naquele tempo podia) Aderson, Pancho, Lelo, João Correia…
    Não te dou a sugestão de reservar os domingos para revelar nossas traquinices porque vai faltar domingo.

  • Rodrigo Lins

    Belo texto Ricardo, tenho boas lembranças da equipe pedagógica do CSF dos funcionários e das grandes resenhas e do bom movimento estudantil diferente do atual.

  • André Ferreira

    Bom demais lembrar do Sagrada Família, ali vivi os melhores momentos de minha adolescência.
    O Colégio prezava por uma ótima educação, tinha excelentes professores, um corpo de apoio pedagógico muito bom, as ótimas orientadoras educacionais (Sandra é um exemplo disto).

    saudades de um tempo que eu sabia que era bom, e aproveitei bastante.

    parabéns ao jornalista, um dos melhores de nossa pequena Alagoas, e um grande SAgradense. Vê-se!

  • josé carlos santos

    gosto muito dos seus textos, sobretudo esses que se referem a fatos e acontecimentos da sua vida, pois em algum ponto eles se assemelham com os meus.Portanto, parabéns e um abraço.

    Em tempo: gomeiro,arretado!

  • Givanildo B Silva

    Ricardo, D. Hélder Câmara afirmou certa vez: “Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver.” Tenho a ousadia de complementar, dizendo: “e de mil histórias para contar…” Você as tem, como um arquivo vivo de uma vida inteira repleta de felizes passagens. Parabéns!

  • Mczbrasil

    O texto é lindo…faz a gente lembrar de fatos antigos,como esse que me ocorreu agora: em 1978 houve a copa da Argentina de futebol. A Argentina estava vivendo uma das mais sangrentas ditaduras da américa latina.Então na base do pão e circo, “deu-se um jeito” para a seleção argentina vencer as partidas necessárias para ir se classificando até chegar a final, vencendo assim, o mundial contra a Holanda. Parece-me que o mesmo está acontecendo agora nessa tal de copa das confederações.Será que o Brasil é apenas 11 jogadores correndo num campo?Jogadores que provavelmente nunca leram uma página sequer de um livro? É por esse Brasil que você torce? E amanhã,passado a euforia,a fila para fazer exames de fezes continuará longa,você com uma terrível ressaca,e ainda achando que jogador de futebol é um grande exemplo de patriotismo…Longe disso! Me diz o nome de pelo menos dois cientistas brasileiros…Ah,não sabe? Então me diga o nome de,pelo menos, dez jogadores de futebol…É lamentável o que fazem com o povo brasileiro!

  • Pedro Soares dos Santos-Pedão

    O não profissionalismo seu no futebol quem agradece é o jornalismo brasileiro,em particular o de alagoas.Parabéns!!!

  • ETFAL

    Para ler cantando!

    Leite moça, leite moça………….

    Quero ver um sagradence não lembrar dessa resenha.

  • João Pedro Moura de figeuiredo Junior

    Lendo essa matéria voltei aos tempos de Sagrada, quanta lembrança boa, principalmente as de atleta. terminei em 1985, sento saudades até hoje. Parabéns pela matéria.