Não lembro como, nem quando isso começou. Mas o fato é que as datas perderam importância na minha vida, e delas só lembro se lembrado for. Talvez seja porque entendo a vida, hoje, como dias que se sucedem, um após o outro, igual à uma roda-gigante, com suas subidas e descidas. É verdade, eu já estive no ponto mais baixo, onde a dor faz morada à espera, sempre, de uma nova visita. Mas também já cheguei ao reino da alegria, cujo cenário é o imenso azul que nos envolve.

Saudosista? Tantos dos nossos leitores de domingo já disseram que eu sou, sim. Não como acusação ou crítica, mas talvez porque cada um de nós que segue em frente sem querer trapacear o calendário traga mesmo um tanto de saudade dos tempos idos. A memória, é verdade, se faz sabiamente seletiva para que mantenhamos a necessária sanidade da alma. Se guardássemos tudo o que passamos com a mesma intensidade talvez desejássemos que o ponto final se antecipasse a algumas vírgulas, pontos-e-vírgulas… Além do mais, contar algo que vivi, presenciei, ouvi, faz parte da arte de "João Passarinheiro", personagem de Mia Couto, em "Cada Homem é uma Raça": "Cada pessoa é uma humanidade individual". Eis, pois, mais um indivíduo que não se imagina só e sem compromisso com os demais 6 bi de humanos.

Confesso que gosto de ver no espelho a imagem do homem encanecido, cabelos cada vez mais raros, as rugas se apresentando como inexoráveis companheiras de caminhada – elas contam parte da minha história. Perdoem-me aqueles que discordam da minha observação a seguir, mas não consigo deixar de considerar ridículos os homens que tingem os cabelos e pêlos do rosto, imaginando que estão enganando os interlocutores. É inevitável não lembrar Machado de Assis: "Envelhecer sem dignidade é a última peça que a natureza prega ao homem."

Faz-me um bem danado a constatação de que valeu a pena ter dez anos quando os tive; vinte, quando eles me chegaram – e por aí vai. Por mais que eu saiba – e sei – que os problemas de então, em cada fase, algumas vezes pareciam sem solução, vejo que eles ajudaram a me construir com qualidades e defeitos. E eu estou aqui: humano, demasiado humano.

Claro, gostaria de ter podido mudar um tanto do roteiro que cumpri. Mas a gente aprende até a lidar com a impossibilidade. Sinto falta dos meus queridos que se foram, mas os trago em mim como se sempre assim tivessem sido – parte do meu lado melhor lado. A compreensão da morte, entendo hoje, ajuda a viver.

Penso nos da minha geração com certo orgulho. Construímos, sim, algo de novo. Beneficiamo-nos das conquistas dos que vieram antes de nós, mas também tivemos os nossos méritos: brigamos, quebramos tabus e se muitos de nós preservamos os valores do Humanismo, com certeza isso já evitou que tivéssemos ido além do que já fomos na desenfreada corrida para o tempo do "eu sozinho." O exacerbado individualismo sempre existiu, mas só entre alguns – hoje virou uma praga social.

Algo que me exaspera na "era dos vencedores" é a crescente cobrança aos adolescentes para que eles sejam grande profissionais – os melhores no que "escolherem", passando a ser essa a principal obrigação que têm de carregar nos ombros. Abrir caminhos com os próprios cotovelos é, também, construir dentro de si um imenso e impreenchível vazio. Eles merecem mais do que isso.  Vou continuar insistindo no tema, até porque acredito que se a alternativa de se fazer humano e aprender a chorar ante a beleza parece romântica, do outro lado o que se apresenta é o nada. Vivi a juventude num mundo que era possível; hoje ele parece improvável.

 

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  • Celso

    O tempo não existe,o que existe são transformações. O tempo tal qual conhecemos,surgiu a partir da necessidade que o homem teve de quantificar as coisas.Minha alma dói…

  • AAraujosilva

    1.”Envelhecer sem dignidade é a última peça que a natureza prega ao homem.” 2.”Faz-me um bem danado a constatação de que valeu a pena ter dez anos quando os tive; vinte quando eles me chegaram – e por aí vai.” 3.”Penso na minha geração com um certo orgulho.

  • AAraujosilva

    4.”Vivi a juventude num mundo que era possível; hoje ele parece improvável.” 5.”Claro, gostaria de ter podido mudar um tanto do roteiro que cumpri.” 6.”A compreensão da morte, entendo hoje, ajuda a viver.” OBRIGADO, meu caro Ricardo. Muito obrigado, mesmo, pois, me apossei …

  • AAraujosilva

    . . . Muito obrigado, mesmo, pois, me apossei sem lhe pedir permissão, despudoradamente, dos seus magníficos escritos. Abraços, Audemaro .

  • Ruth Vasconcelos

    Ótima reflexão para um final de ano onde fazemos um balanço do percurso feito e definimos propósitos para os próximos 12 meses de existência. Penso que o maior propósito é mesmo não sermos medíocres e acomodados. Respeitar o tempo,tempo,tempo vivido e viver o que nos resta com dignidade.

  • Arísia Barros

    Meu Caro Ricardo Motta, Tua palavra tem cheiro de continuidade…Teu texto é simplesamente lindo. Parabéns! Arísia Barros

  • GILSEN DORVILLÉ

    Que bom que o tempo não pára, pois só assim não paramos no tempo. Saber viver e envelhecer é saber conviver com os prós e contras do cotidiano. Saber viver e envelhecer com dignidade, é o objetivo maior do ser humano. Um grande abraço, grande Peninha.

  • Ricardo Gois Machado

    De todos, este foi o seu melhor texto. Nada melhor para se encerrar o ano. PAZ E SAÚDE PARA VOCÊ E TODOS OS QUE LHE SÃO CAROS.

  • Irlam Emerson

    Texto muito belo, parabéns uma boa reflexão para nós.Valeu.

  • Márcia Rejane

    Ricardo, que texto lindo.Que você continue esse saudosista implacável com seus textos maravilhosos.Sou sua fã. Paz, saúde e amor para você e sua família

  • joao miranda

    parabéns,lindo texto para reflexão.

  • Geraldo de Majella

    Esse tipo de reflexão esta faltando no mundo em que vivemos. A possibilidade de discutir em rede é um passo dado para romper com o comodismo e a praga do individualismo. Praga que corroi a alma. Geraldo de Majella

  • Silva

    Suas palavras expõe inexoravelmente que, num mundo tão individualista e desumano como é o de hoje, ainda há seres humanos que são, de fato (e de alma), humanos. Parabéns! Feliz 2009 para todos nós!!

  • SOCORRO FERRO

    PARABÉNS PELO SEU TEXTO,NÃO SINTO SAUDADES DA MINHA JUVENTUDE,MAS DOS TEMPOS EM QUE TÍNHAMOS CERTEZAS QUE NOSSOS JOVENS QUERIAM SER HOMENS DECENTES IGUAL Á VOCÊ.HOJE NÃO EXISTE FUTURO PRA ELES,SÓ O DIA DE HOJE,O AMANHÃ,TALVEZ…QUEM SABE.FELIZ ANO NOVO!UM ABRAÇO SOCORRO FERRO

  • Célio

    Caro Ricardo, parabéns pelo texto, dentre tantas notícias ruins, é bom vez ou outra encontrarmos alguns assim, continue inspirado.

  • Mirya

    O tempo,de certa forma,traz de volta os nossos entes queridos que se foram… nada é mais forte (isso só constatamos com a idade),do que o nosso amor por eles.Sem conhecer você,posso definir seu sentimento quando escreveu o texto,obrigada!

  • vanessa omena

    Ricardo, que bom atingir o ponto sem ter que endurecer… Mas como “o ponto” é uma estrêla, Ultreya! abraços vanessa

  • moizes antonio da silva neto

    Definitivamente SEM PALAVRAS!

  • Tadeu Wanderley

    Caro Ricardo, seu texto foi um bálsamo para nossas almas. Como sou saudosista também, volto ao passado nesse momento e lembro-me que chegamos a jogar bola juntos, algumas vezes, na praia da Av. da Paz aos sábados pela tarde. Bons tempos aqueles.

  • Tadeu Wanderley

    … Que a Energia Suprema Universal continue a te iluminar. Um abraço.

  • Maria Cavalcante

    Ricardo, parabéns pela a composição hamoniosa das palavras no seu texto!!! Um grande beijo! Maria

  • Archimedes

    Humano, Demasiado Humano!!!

  • Camila

    Meu espelho!!!!

  • Wellington Cavalcanti de Oliveira

    Ainda bem que ainda existe “gente que é gente”! Vc é uma delas! Parabéns Ricardo, e feliz 2009!!!

  • Ivonaldo dos Santos

    Caro Amigo, fiquei feliz em ler esta mensagem onde voce descreve a nossa realidade. Ao longe, admiro seu talento que para mim não é nenhuma novidade. Feliz ano novo e muita paz. Ivonaldo amigo da epoca do CEPA (Moreira e Silva) 21-3203 4386/4387 9500 2533