9 de fevereiro de 2016

Tu não me sais da lembrança

Quando tocava “Pastorinhas”, a madrugada já ia alta, anunciando que o baile de carnaval se aproximava do fim. Era um gosto antecipado de saudade na alma, e íamos girando o salão calmamente, bem devagar e, de alguma forma, em estado de paixão.

A marcha-rancho de Braguinha, que nasceu “Linda Pequena”, em 1938, era a minha preferida em todos os “tríduos momescos”. E  já havia o clássico “Máscara Negra”, do grande Zé Kéti (e olha que vivíamos a dura década de 1970). Chegávamos sempre ao baile embalados pelo clima da festa mais popular do Brasil, depois de pintarmos o sete – literalmente – no corso da praia da Avenida (não faz parte das minhas lembranças o mela-mela musical na Rua do Comércio, de que só ouvira meus pais a comentar, saudosos.)

Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, foi nome e sobrenome do carnaval brasileiro desde os anos de 1930, seguindo por décadas a tornar inesquecíveis suas marchinhas. Filho de classe média da Vila Isabel (Rio de Janeiro, nascido em 1907), tornou-se João de Barro quando se decidiu pela  profissionalização. Seu grupo Flor do Tempo já se tornara conhecido na capital do país, mas virou o Bando de Tangarás assim que a música se tornou coisa séria. Ali, teve a ilustre companhia de Noel Rosa, com quem compôs “Pastorinhas”.

Depois, foi um sucesso seguindo o outro – todos lembrados até hoje pelos que gostam das marchas carnavalescas de salão (na época em que surgiram, eram tocadas nas rádios e nas ruas). Desde que estreou com “Antonha” (1930), na voz de Almirante, Braguinha caiu na boca do povo, conquistando-lhe o coração. Com letras fáceis, carregadas de singela poesia, o compositor não parou mais de levar a vida no bico – compunha assoviando, o que só ressaltava o seu talento (foram mais de 500 músicas). “Linda lourinha” e “Andorinha só não faz verão”, ambas com Lamartine Babo, estouraram em 1934; “Balancê”, com Alberto Ribeiro, de 1937, fez sucesso também em 1979, na voz de Gal Costa; “Pirata da perna de pau”, de 1947, foi parceria com Alberto Ribeiro, assim como “Chiquita Bacana”, de 1949. Esquecê-las, quem há de?

Mas nem só de carnaval viveu o homem. Parceiro de Charles Chaplin em “Smile” (“Sorri”, que Djavan e Renato Braz interpretam magnificamente), João de Barro ainda teve tempo para compor, por exemplo, “Copacabana” (com o fiel Alberto Ribeiro), que Dick Farney, dono da voz mais elegante do Brasil, eternizou. Só isso? Nada disso. Braguinha fez adaptações de histórias infantis (Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e outras), que venderam mais de cinco milhões de cópias até 1976. Incansável, escreveu músicas e roteiros de filmes nacionais, quando as chanchadas lotavam as salas de cinema em todo o país.

O momento mágico, de fazer inveja a qualquer grande compositor, entretanto, aconteceu num estádio de futebol. E não era qualquer um: o Maracanã – “o maior do mundo” – foi o seu palco naquele 1950. A Copa do Mundo era o assunto de todas as horas, e o Brasil de Ademir Menezes, o grande favorito. A torcida em peso a cantar “Touradas em Madrid” (de novo com Alberto Ribeiro, em 1938), embalava as vitórias do selecionado nacional. Do fim dessa disputa, nem é bom lembrar. Inesquecível, a consagração do artista João de Barro.

E quem teria sido aquela “morena da cor de Madalena”? Acho que ela foi tantas. Mas não me saem da lembrança “os lindos versos de amor” com que Braguinha cantou “Pastorinhas”.

 

 

 

8 de fevereiro de 2016

Picolé de cachaça

Conheci Custódio Amorim, ou simplesmente Amorim, em Maragogi, na casa de amigos comuns, de quem eu guardo calorosas saudades.

Aquele mulato assanhado e de voz rouquenha se mostrou, já nos primeiros contatos, um exímio seresteiro. Seu violão era madeira que cupim não rói, indo de um estilo a outro sem sobressaltos.

Varamos algumas madrugadas juntos, naquela temporada de verão, até que alguém – acho que Suely Arruda, uma amiga recifense e muito querida, desse a senha: “Ele é o compositor de Picolé de cachaça”. A imortal marchinha de carnaval deixava, então, de ter autoria desconhecida – embora já fosse de domínio público – para reconhecer o pai, com um DNA que não deixava qualquer dúvida quanto à origem.

Aos mais novos, lembro um trecho da música:

 

Mandei fazer um picolé de cachaça

Quem muito bebe é popular na praça

E dessa vez vai ser uma coisa louca

O cobrador vai pular de picolé na boca

 

E o cara entregava o que prometia. Tão logo acordava naquelas luminosas manhãs de janeiro, na bela Maragogi, entornava no dejejum um copo da danada “para abrir a garganta”. Encontrara, ali, sabores variados, a escolher, algumas com pedaços de raízes, que se embriagavam nas garrafas com rótulos minúsculos e desimportantes para os seus legítimos apreciadores.

Lembro-me de que, em 1989, fui fazer um trabalho numa emissora pernambucana quando tive o imenso e exaustivo prazer de acompanhá-lo, por uma semana, nas ruas e botecos de Olinda, a mitológica e boêmia urbe pernambucana.

Em uma das noitadas, que só tinham desfecho aos segundos raios de sol, tomamos conta da sede do Pitombeiras dos Quatro Cantos, tradicionalíssimo bloco carnavalesco da histórica cidade. Alternamos o violão, eu como seu coadjuvante, cantando um interminável repertório sem data da MPB.

Lá pelas tantas, quando eu tocava os clássicos de Lupicínio Rodrigues, uma mulher de cabelos claros e encaracolados, corpo robusto, veio para nossa já repleta mesa, acompanhando-nos com sua voz afinada e suave. Discretamente, Amorim me soprou ao ouvido: “É a Pii, irmã do Chico Buarque”. Foi o suficiente para que eu me perdesse nas harmonias, o que tentei consertar tocando uma das canções do mais – justamente – admirado compositor brasileiro (esqueçamos os tolos e estúpidos).

Pii, discretamente, abandonou a nossa mesa, o que me deixou ainda mais confuso. Logo depois, eis que uma improvável lucidez esclareceu a motivação do seu gesto: ela vivia em Olinda, sem pretender ser conhecida como a “irmã do Chico”. Errei na dose ou na estratégia.

Para encerrar a inesquecível noitada, Picolé de Cachaça marcou presença em um coro quase afônico – e nem era carnaval. Sucesso de público e de crítica!

Há muito tempo não vejo Amorim, ótima figura, professor de música em Olinda e agora, pelo que eu soube, ex-boêmio. Uma certeza me restou, no entanto: da guloseima gelada só há de ter sobrado o talo.

 

7 de fevereiro de 2016

Marchinhas

Eis que retomamos as nossas domingueiras em pleno carnaval. Confesso que vejo com grande alegria a volta das marchinhas, as sátiras políticas, que têm o deboche como marca registrada.

Nada melhor do que o bom humor como meio de vingança contra os que nos maltratam tanto no cotidiano, provocando a nossa fúria e envenenando os nossos dias, virtuais ou não.

Há de ser sempre, preferencialmente, essa turma o alvo da necessária catarse no fechamento das férias de verão da Nação Tupiniquim (calma, gente, que a Semana Santa já vem aí).

Ex-compositor das marchinhas do extinto Meninos da Albânia e dos Filhos da Pauta – que vive um período sabático -, não há como negar o prazer que eu sentia ao montar os versos e as melodias – sempre de fácil memorização – que animavam os foliões nas ensolaradas praias de Maceió, em outros carnavais.

Não há uma receita para criar as marchinhas, mas acredito que precisamos nos despir do mau humor dos dias inúteis, revelado até sem que percebamos, vestir a fantasia do politicamente incorreto, ser algo iconoclasta, sub-repticiamente “sujo”, e fazer o passo no duplo (triplo, quádruplo) sentido.

Pode não resolver, mas me parece um bom caminho compositor.

Aproveitando a oportunidade e matando a saudade, deixo algumas sugestões de refrão aos leitores de domingo, a começar pela nossa intrigante presidenta, uma piada pronta, diriam os mais aficionados à folia momesca:   

 

A Dilma não entregou o seu assento

Pra o playboy das Minas Gerais

Mas estocou na cabeça tanto vento

E saudou a mandioca nos nossos anais 

 

É claro, não poderia faltar o falcão-roedor do Planalto Central, que adora o chocolate suíço e não há de merecer nem perdão nem versos à mancheia:

 

Ô Cunha, você é um anão

Se você fosse grande

Não seria Cunha não (bis)

(É só seguir a rima.)

  

O que dizer do nosso vetusto ex-presidente, com seu vocabulário rasteiro e/ou carregado de palavras que menoscabam seus inimigos, pescadas que são em dicionários para iniciantes?

 

O Collor brigou com o PGR

Que não pagou os seus IPVAs

Encheu o tanque nos postos da BR

E mandou a conta pra Terra dos Marajás

 

E, por óbvio, Renan pai é personagem indispensável na ópera bufa nacional (trato aqui do carnaval, é claro). Para facilitar, sugiro a paródia de uma inolvidável marchinha:

 

Olha a cabeleira do Renan

Será que é do tchan

Será que é do tchan? (bis)

 

Será que ele é o Rei do Senado?

Será que é o Boto Tucuxi?

Só sei que de papel passado

Virou o dono de Murici

 

Corta o… dele (bis) 

 

Se nenhuma caiu no gosto do freguês, que tal compor a sua própria “vingança”- e sem censura?

 

6 de fevereiro de 2016

Dudu Hollanda foi condenado pelo “conjunto da obra”

Tão logo seja publicado o acórdão do julgamento do TJ, que condenou o deputado Dudu Hollanda – no caso Paulo Corintho -, o advogado Welton Roberto vai recorrer.

Inicialmente, a expectativa é de que seja apresentado um recurso ao próprio Tribunal de Justiça. Mas o caminho há de ser longo, chegando ao STJ, até para que a o processo conclua a sua tramitação e a sentença – se confirmada – passe a valer.

De qualquer forma, e seja qual for o resultado, há uma convicção: Dudu Hollanda foi condenado – no TJ – pelo conjunto da obra, a sequência de episódios polêmicos em que ele tem se envolvido.

A expectativa é de que a decisão de agora seja um freio para o indomável parlamentar.

5 de fevereiro de 2016

Inquérito da PF investiga doações de 2014: Renan pai dentro, Filho fora

Quem afirma é O Globo: o ministro Teori Zavascki autorizou mais uma investigação da PF envolvendo o presidente do Senado, Renan Calheiros.

Já são seis os inquéritos na nova fase da carreira política de Calheiros, o que não há de trazer nenhuma preocupação para o senador alagoano.

O interessante nessa história é que o pedido da PF – de acordo com o jornal – incluía o governador Renan Filho, beneficiário das doações da UTC, de Ricardo Pessoa, na campanha de 2014 (R$ 1 milhão). Zavascki, como na Operação Catili…, aceitou apenas parte do solicitado: pai dentro, Filho fora.

Para a Polícia Federal, a doação poderia ser “o troco” numa suposta negociata envolvendo Angra Três – uma graninha até boa: R$ 30 milhões.

No bolo estariam: Calheiros, Lobão e Romero Jucá, velhos amigos e aliados.

O presidente do Senado nega qualquer relação com Pessoa (acredito que no caso do Fernando seja verdade absoluta).

TC recomenda que prefeitos não gastem com o carnaval

O presidente do Tribunal de Contas, Otávio Lessa, recomendou que os prefeitos interioranos não gastem o dinheiro público com o carnaval.

Em tempos de Zica e de dureza não parece haver espaço para a folia financiada pelo erário.

Só que Lessa também dá um aviso: o Tribunal de Contas começa a realizar as suas auditorias ordinárias após o carnaval.

Ou seja: quem desobedecer à orientação pode se dar mal.

Será?

MP de Contas quer anular contratos milionários entre prefeituras e escritórios de advocacia nos precatórios do Fundef

O Ministério Público de Contas decidiu entrar numa briga que vale quase R$ 500 milhões (o valor oficial, por ora, é de R$ 440 milhões).

O dinheiro é decorrente do pagamento de precatórios do antigo Fundef – Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental -, que cerca de 50 prefeituras alagoanas estão recebendo, correspondendo ao período de 1998 a 2006.

O maior valor, por óbvio, é o da prefeitura de Arapiraca, segundo o procurador-chefe do MP de Contas, Rafael Alcântara: R$ 140 milhões.

Ele explica que o embate tem duas frentes.

A primeira, alvo de uma Representação ao pleno do Tribunal de Contas, pretende obrigar as prefeituras a investir a totalidade dos recursos, repassados após decisão judicial, na Educação:

– Seria a verdadeira Revolução na Educação, uma chance única de mudar a realidade do ensino público em Alagoas. Tem sido uma discussão muita intensa com as prefeituras, que querem gastar o dinheiro da forma que acharem melhor. Para nós, está claro: é dinheiro da Educação.

Honorários

A outra questão, ainda mais polêmica, diz respeito aos honorários pagos os escritórios de advocacia que atuaram nas demandas.

Alcântara garante que as prefeituras estão pagando de 15% a 20% de honorários do valor recebido do precatório do Fundef “para um trabalho de baixíssima complexidade e sem a realização de qualquer licitação na contratação dos escritórios”. Exemplo: Arapiraca vai pagar R$ 21 milhões de honorários advocatícios.

O MP de Contas também apresentou uma Representação ao TC pedindo a anulação dos contratos – “lesivos ao patrimônio público” – com os escritórios de advocacia (cerca de 30):

– Nós já conseguimos suspender nove desses contratos, mas queremos que todos sejam anulados, até porque os recursos desses precatórios não podem ser usados para esse tipo de pagamento. Além disso, os valores projetados – ou pagos – são exorbitantes.

A questão deve ter novos e importantes desdobramentos após o recesso de carnaval.

4 de fevereiro de 2016

Joaquim Brito entrega cargo, mas o governador não aceita

Se alguém apostava na saída de Joaquim Brito da Secretaria Estadual de Assistência Social estava equivocado.

Em uma reunião com o governador Renan Filho na semana passada e após um diálogo constrangedor, Brito entregou o cargo, mas o “chefe” foi incisivo: “Você só sai do governo se quiser”.

Na verdade, nem Renan Filho nem o secretário se mostram satisfeitos com o que foi produzido na Assistência Social até agora – nada, sendo objetivo.

Brito, entretanto, além de ser o nome da cúpula do PT local, com quem os Renans mantêm estreita relação, pode argumentar – e com razão – que não tem recebido um apoio significativo do Palácio.

Na reunião da semana passada, Renan Filho cobrou explicou sobre a redução do número de beneficiários do Programa Bolsa Família em Alagoas, em 2015. Brito não soube responder e se sentiu constrangido com as indagações precisas – de números – do governador.

Resultado: pôs o cargo á disposição.

A resposta de Renan Filho já está acima publicada