O despacho de um delegado do Rio Grande do Norte ao liberar um morador de rua detido pela guarda municipal viralizou na web pelo tom “poético” usado no documento. O homem foi levado à delegacia por “arriar o barro” (palavras do delegado) dentro de um prédio onde funciona um centro de educação infantil, mas foi solto graças ao bom senso do policial.

Em menos de dez horas, uma postagem com a foto do despacho teve mais de três mil retweets e sete mil curtidas no Twitter. A maioria das respostas dá razão ao delegado, que definiu o fato como uma “cagalança geral” – e ele não poupou nem a si mesmo.

Delegado plantonista liberou morador de rua (Reprodução/Tribuna do Norte)

O despacho na íntegra:

“Não vislumbro justa causa com vistas a justificar a lavratura de procedimento criminal contra o conduzido, por falta absoluta de provas. Inexistem autoria e materialidade. O conduzido é morador de rua, e não achou lugar melhor para dar de corpo, obrar, grosso modo, esvaziar o intestino grosso, cagar, como se diz no idioma espontâneo do povo. Trata-se de um brasileiro em típico estado de necessidade. Ele não tem casa nem privada onde possa “arriar o barro”, como se diz lá em nós. E foi trazido a esta delegacia pelo simples fato de ter cagado no intramuros da repartição pública mal cuidada e mal vigiada, quando a cagada maior é dos administradores, a partir do momento em que não cuidam direito da segurança do prédio, um espaço destinado a prestar serviço público. Trata a presente ocorrência de uma cagalança geral: do prefeito ao secretário, passando pelo diretor do órgão, pelo vigilante de faz-de-conta, pelos membros da Guarda Municipal que conduziram um homem inocente até esta Delegacia, e por que não dizer da parte deste delegado, ora fazendo uso de linguagem pouco usual, porém vigorosa, para redigir o presente despacho.

Natal, 05 de agosto de 2018

Aldo Lopes de Araújo

Delegado de Polícia Civil”

Dá pra perceber que o delegado, Aldo Lopes de Araújo, tem uma veia literária, né? Tanto é que ele tem um livro publicado, ganhador do Prêmio Câmara Cascudo e com apresentação de ninguém menos que Ariano Suassuna. O cabra tem moral!

  • Ricardo Mota

    Caro Bruno:
    Que bom vê-lo aprontando também por aqui. O material está interessante e divertido. É lembrar que o homem é o único animal que se esconde para fazer suas necessidades mais naturais – inclusive aquela.
    Boa sorte e um forte abraço de torcedor.