É uma honra copiar – Blog do Marlon
Erros e acertos
Jogo pobre, jogo rico

Pedi licença, pedi autorização para o jornalista Ricardo Mota para reproduzir no meu blog um texto maravilhoso publicado neste final de semana. Recomendo, vale a pena a leitura.

O CORAÇÃO DA PONTA DA CHUTEIRA

Perguntaram-me na rua, semana que passou, por que não há clima de Copa no Brasil.

– Que Copa?

Claro que eu estava brincando. A constatação é geral e as explicações todas haverão de se aproximar: vivemos dias de pouca alegria por aqui, e nem o futebol, que foi até algum tempo a nossa grande paixão, consegue nos trazer a expectativa de um momento de euforia, de felicidade embriagada.

A pobreza criativa da propaganda brasileira sobre o evento diz muito: o Tite vende tudo na sua linguagem acaciana e sua pose de dândi dos pampas. Só que os craques brasileiros chegaram dos outros continentes – nunca da América do Sul –, onde vivem e se exibem, recentemente, seguindo a lógica e o caminho “da grana que ergue e destrói coisas belas”.

Quer saber?

Eu acho que o Brasil é um dos favoritos para conquistar a taça. Um sentimento que eu não tenho há muitas Copas, ainda que sem muito entusiasmo, o que os meus colegas mais jovens atribuem a um incurável saudosismo. Respondo, em tentativa de blague, que quem cresceu ouvindo Tom Jobim não se acostuma com Safadão (o rapaz não tem nada a ver com isso, nem merece a comparação – impossível de ser feita, aliás). Neymar e Marcelo, entretanto, me fazem marejar e sorrir como os d’antanho.

Acho eu, gente, que o que se pratica hoje, com bola, chuteira, juiz e gramado, é outro esporte – apesar de levar o mesmo nome. O futebol mudou com o mundo, e este ficou mais avexado, mais cobrado, mais perigoso, mais seletivo nas arquibancadas, mais pragmático, mais atlético, mais veloz, mais profissional… menos lírico.

“Ah, ele é um romântico”, dirão.

Não tenho como negá-lo, e até levo mais longe a minha confissão.

Sempre que eu sinto que o prazer e a paixão pelo futebol estão me abandonando, revejo Pelé Eterno (foi assim depois do blitzkrieg de 2014). Fico ainda emocionado e me dou conta de quanto Romário, o maravilhoso sonso da área perigosa, estava prenhe de razão ao dizer do maior-de-todos: “O Pelé calado é um poeta!”

De fato, aquele negro bonito, de postura incomparavelmente elegante e altiva dentro do campo, uma quimera para os adversários, urdia os seus versos, de uma poesia sofisticada e aguda, com os pés. Seria um perfeito heterônimo de Fernando Pessoa, a palpitar o coração na ponta da chuteira.

Não precisava dizer mais nada, balbuciar palavras além do feito no rente ao chão. Estava tudo esculpido na retina dos que o seguiam, encantados, agradecidos pela existência do futebol – e eu continuo sendo um deles. Deixou para que outros tentassem descrever o que viam – e que nem sempre acreditavam no que viam -, como Eduardo Galeano, o escritor uruguaio (Futebol ao Sol e à Sombra):

– Quando Pelé ia correndo, passava através dos adversários como se fosse um punhal. Quando parava, os adversários se perdiam nos labirintos que suas pernas desenhavam. Quando saltava, subia no ar como se o ar fosse uma escada. Quando cobrava uma falta, os adversários que formavam a barreira queriam ficar de costas, de cara para a meta, para não perder o golaço.

O “Baixinho” está perdoado porque, apesar de ter subido tão alto, não falava a língua dos deuses (que “são deuses porque não se pensam”). Se assim não fosse, haveria de saber, desde sempre, que quando o deus do futebol quis mandar seu filho à Terra, o fez homem, negro e deu-lhe um único nome de batismo: Pelé.

Que venha a taça!

  • JocéliodaRocha Cavalcante

    Excelente!

  • Romildo Nogueira

    Crônica que nos leva ao saudosismo, que nos encanta da primeira a ultima palavra, que só alimenta uma certeza, Pelé era imparável, é incomparável. Quem quiser recuperar seu prazer de ver futebol, assista também a jogos da Melhor Seleção de Todos os Tempos que não foi Campeã, A Seleção de 1982. Muito Obrigado Ricardo Mota!

  • Copa do nada

    Do jeito que o Brasil tá uma zona, é melhor que perca a copa, -porque só assim o povo brasileiro cai na real com o que passa no Brasil.

  • Zé das gaias

    Não acho certo o tite tá fazendo comerciais em plena copa do mundo pra ganhar dinheiro,o felipao fez tanto comercial que esqueceu de treinar o Brasil resultado Alemanha 7 X 1 Brasil.
    Deveria a CBF proibir após convocação técnico e jogadores tá fazendo comercial.
    Se concentrar apenas em treinamentos.